Pequim vê com apreensão fim do embargo de armas ao Vietname

A administração Obama anunciou na segunda-feira, durante a visita ao Vietname, a extinção total do embargo na venda de armas. Uma decisão histórica e simbólica, que a China se apressou em congratular pelas vias oficiais. Na imprensa, a leitura é diferente: esta é mais uma estratégia dos Estados Unidos para “conter” a ascensão da China naquela região.

Andreia Martins - RTP /
Barack Obama durante a visita a Hanoi, capital do Vietname Reuters

Barack Obama chegou ao Vietname no domingo, mas a visita oficial ficou desde logo marcada pela passagem por Hanoi, capital do país, onde anunciou a eliminação de um dos vestígios deixados pela mortífera Guerra do Vietname: o fim do embargo norte-americano à venda de armas ao país.  

Contudo, esta é uma decisão que pode “acender o rastilho” na região. O editorial desta terça-feira do jornal estatal China Daily considera que a decisão foi deliberadamente tomada com a intenção de estancar a influência de Pequim na região asiática. Segundo a publicação, pode mesmo comprometer “a paz regional e a estabilidade”. 

Para além do China Today, também o Global Times vê na ação norte-americana uma ameaça e nas palavras de Obama “uma mentira muito má”. A publicação previa mesmo graves consequências nas relações diplomáticas entre Washington e Pequim. 

Até porque, segundo o diário chinês, a Casa Branca está “a aproveitar-se” do Vietname para agitar as águas do Mar do Sul da China, há muito disputadas por várias potências asiáticas, onde é a China que assume e reclama controlo. 

A reação por parte da imprensa contrasta fortemente com as palavras de Hua Chunying, o ministro chinês dos Negócios Estangeiros, que enfatizou a felicidade de Pequim ao ver “o Vietname a estabelecer relações amigáveis com outros países, incluindo os Estados Unidos”. 

“Essas relações de cooperação conduzem a uma maior estabilidade e desenvolvimento da região. Os embargos são uma consequência da Guerra Fria e nunca deveriam ter existido”, acrescentava o chefe da diplomacia chinesa. 
O mar no centro dos problemas
O primeiro a prever esta leitura negativa por parte dos media chineses foi o próprio Presidente dos Estados Unidos, garantindo desde logo que esta iniciativa “não visava” a China, 

Barack Obama não deixou no entanto de tocar no assunto que domina as atenções naquela região. O presidente norte-americano não se referiu diretamente a Pequim, mas defendeu que “as grandes Nações não devem intimidar as mais pequenas, as disputas devem ser resolvidas de forma pacífica”. 

John Kerry, secretário de Estado norte-americano, reforçou a mensagem já durante a visita à cidade de Ho Chi Minh: “Nada do que estamos a discutir aqui é sobre a China, mas sim sobre o mercado com o mais rápido crescimento do mundo”.  No caso do conflito China – Vietname, um desentendimento entre os dois países quanto aos respetivos limites territoriais e marítimos já foi disputado pela via militar e provocou dezenas de mortos no ano de 1988. 

A China reclama há vários anos grande parte do Mar do Sul. Em várias zonas, os recursos são disputados com outros países asiáticos de menor dimensão: Japão, Malásia, Brunei, Filipinas, Taiwan e Vietname. 

São recorrentes as notícias que dão conta de uma nova construção nas ilhas reclamadas por Pequim, nomeadamente instalações militares. 

Mas o que têm os Estados Unidos que ver com tais tensões regionais? Apesar de não reclamar milhas no Mar do Sul da China, Washington continua a desenvolver missões militares naquela área, ignorando a identificação da Força Aérea chinesa, que reclama deliberadamente a declaração de propriedade daquelas zonas por parte de Pequim.
A Índia ali tão perto
À nova amizade entre o Vietname e os Estados Unidos, juntam-se novas alianças com o Ocidente naquela zona, e que vão testando os nervos das autoridades chinesas. É o caso da Índia, que poderá alcançar o estatuto priveligiado de aliado.

Na semana passada, a Câmara dos Representantes dos EUA aprovou uma emenda ao National Defense Authorization Act, que prevê "melhorar a cooperação de Defesa e Segurança com a Índia", um estatuto semelhante aos aliados de Washington na NATO.

As alterações terão ainda de ser aprovadas pelo Senado norte-americano e, em última instância, pelo presidente. Em Nova Deli, já se prevê uma reação tempestuosa do país vizinho, com especialistas a verem nesta iniciativa uma provocação à maior potência regional.

"Os Estados Unidos estão ativos na procura de aliados para a confrontação com a China. Agora, a Casa Branca quer estabelecer relações com a Índia, que tem há muitos anos disputas territoriais contra a China. Estes podem ser considerados os primeiros passos rumo a um tratado militar com a Índia e outras potências regionais, o que se traduziria no pior pesadelo de Pequim", escreveu o analista russo Sergei Manukov.


 
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