Mundo
Perseguição e violência étnica expulsam minoria muçulmana de Myanmar
São muçulmanos, vivem na antiga Birmânia há vários anos mas o país não os reconhece como cidadãos ou sequer como um dos vários grupos étnicos que compõem a população. Com cerca de um milhão de pessoas, a minoria Rohingya habita sobretudo no Estado de Rakhine, em Myanmar. Perseguidos há várias décadas, os Rohngyas enfrentam uma nova vaga de violência militar que muitos não hesitam em classificar como genocídio. As autoridades negam a acusação.
Num artigo publicado esta quarta-feira, a CNN traça um duro paralelismo entre a fotografia de Alan Kurdi, o bebé sírio que foi encontrado morto numa praia turca em setembro de 2015 - e que sensibilizou o mundo para a crise de refugiados - e a fotografia de Mohammed Shohoayet, uma criança de 16 meses da minoria Rohngya, que não sobreviveu à fuga para o Bangladesh. Chama-lhe "o Alan Kurdi dos Rohngyas". A mãe, a tia e o irmão de três anos morreram afogados com ele.
A fuga desta família representa o desespero de milhares de refugiados da minoria muçulmana no país de maioria budista. Há décadas que Myanmar – a antiga Birmânia – persegue os Ronhngyas, negando-lhes mesmo o estatuto de cidadãos.
O grupo étnico reside sobretudo no Estado de Rakhine, uma zona de difícil acesso situada na fronteira com o Bangladesh, e é visto precisamente como uma invasão de imigrantes “Bengali”, ou seja, originários daquele. No entanto, muitas famílias residem em Myanmar há já várias gerações.
Durante os últimos meses, Aung San Suu Kyi e outros políticos birmaneses estão a ser alvo de duras críticas por parte da comunidade internacional pela falta de resposta e ausência de uma intervenção mais firme para evitar a perseguição e a violação dos Direitos Humanos.
Zafor Alam, pai de Mohammed Shohoayet, mais uma das vítimas deste conflito, revela à CNN que a aldeia onde a família vivia foi dizimada. “Os helicópteros disparavam contra nós, os soldados de Myanmar abriam fogo aos cidadãos. Os meus avós foram queimados até à morte. Não podíamos ter ficado em casa e fugimos para a floresta.”
“Só o rio é que sabe”
Alam separou-se da família durante a viagem para o Bangladesh pela floresta. Escapou à perseguição dos soldados de Myanmar, mas a família não teve a mesma sorte. Depois de conseguir atravessar o rio Naf, que faz a divisão entre os dois países, viu a imagem do filho e soube que o resto da família não tinha conseguido fazer a travessia.
“Quando vejo a fotografia sinto que preferia morrer. Não vejo nenhum propósito em viver neste momento. Não tenho mais ninguém. Os meus dois filhos e a minha mulher morreram, está tudo acabado”, desabafa Alam, que se encontra há um mês no campo de refugiados de Leda, em Teknaf, região no sul do Bangladesh.
A história desta família destruída pela perseguição tem sido recorrente nesta região do globo. A Organização Internacional para a Migração (IOM na sigla inglesa), a agência da ONU para as migrações, estima que mais de 34 mil pessoas tenham passado a fronteira entre o norte de Myanmar e o Bangladesh nas últimas semanas e meses. “Só o rio é que sabe quantos corpos de Rohingyas ficaram para trás”, diz Alam.
O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados regista dois campos de refugiados com cerca de 32 mil pessoas a necessitarem de assistência médica, alimentar e sanitária.
Mas o Governo do Bangladesh garante que mais de 50 mil refugiados Rohingya fizeram a travessia entre os dois países, ao longo dos últimos meses.
Ainda em recuperação após a perda dos filhos e da mulher, Alam confessa que apesar de não haver medo e perseguições, a vida não é fácil no Bangladesh. “Não temos casa, não temos comida. As pessoas estão a viver neste campo há muito tempo”.
Vídeo no centro da polémica
Em resposta à história de Alam, um oficial do Governo classifica o testemunho como “falso” e “propaganda” e que a única operação militar ocorrida no norte de Rakhine está relacionada com a identificação de suspeitos da morte de nove polícias na fronteira com o Bangladesh, no passado dia 9 de outubro.
Os militares iniciaram desde logo uma campanha de “contra-insurreição” tendo como alvo os civis Rohingya, com o Governo a negar repetidamente as acusações de violação dos Direitos Humanos. Mas um vídeo publicado no Facebook no passado sábado veio dar um novo fôlego às acusações.
O vídeo, com pouco mais de um minuto, mostra vários polícias a espancarem dois homens desarmados, em Rakhine, junto à fronteira com o Bangladesh. Na sequência do vídeo, quatro polícias foram detidos pelas autoridades.
Carta ao Conselho de Segurança
Aung San Suu Kyi, vencedora do Nobel da Paz em 1991, ocupa vários cargos de destaque no país, incluindo o de conselheira principal e de ministra dos Negócios Estrangeiros, tem sido alvo de críticas por parte da comunidade internacional, que a acusa de inação perante a perseguição étnica dos Rohingya.

Ministra indonésia dos Negócios Estrangeiros (à esquerda) com Aung San Suu Kyi (à direita). Foto: Soe Zeya Tun - Reuters
Numa carta aberta enviada na semana passada ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, um grupo de personalidades, incluindo antigos laureados com o Prémio Nobel da Paz, chama à atenção para a situação em Rakhine.
“Uma tragédia humana que se estende à limpeza étnica e crimes contra a humanidade está a acontecer no Myanmar. Milhares de pessoas já fugiram para o Bangladesh, muitas são obrigadas a voltar para trás. Alguns peritos avisaram para o possível genocídio. Tem todos os traços de tragédias recentes do passado – Ruanda, Darfur, Bósnia, Kosovo”.
“Sem evidências” de genocídio
Perante a pressão de organizações internacionais, o Governo de Myanmar destacou uma comissão de investigação, que concluiu esta quarta-feira num relatório intercalar que não existem sinais de genocídio.
Segundo o correspondente da BBC em Myanmar, o documento não inclui qualquer referência às alegadas mortes provocadas pelas forças de segurança como uma espécie de “castigo coletivo” pelas mortes de polícias em outubro.
O relatório descarta as alegações de limpeza étnica vindas a público, argumentando que ainda existem muçulmanos Rohingya a viver na região de Rakhine e que os edifícios de culto islâmico ainda não foram destruídos.
Prosseguem no entanto as investigações sobre as denúncias de detenções arbitrárias e tortura. Espera-se que a comissão apresente o relatório final até ao fim de janeiro.
A fuga desta família representa o desespero de milhares de refugiados da minoria muçulmana no país de maioria budista. Há décadas que Myanmar – a antiga Birmânia – persegue os Ronhngyas, negando-lhes mesmo o estatuto de cidadãos.
O grupo étnico reside sobretudo no Estado de Rakhine, uma zona de difícil acesso situada na fronteira com o Bangladesh, e é visto precisamente como uma invasão de imigrantes “Bengali”, ou seja, originários daquele. No entanto, muitas famílias residem em Myanmar há já várias gerações.
Durante os últimos meses, Aung San Suu Kyi e outros políticos birmaneses estão a ser alvo de duras críticas por parte da comunidade internacional pela falta de resposta e ausência de uma intervenção mais firme para evitar a perseguição e a violação dos Direitos Humanos.
Zafor Alam, pai de Mohammed Shohoayet, mais uma das vítimas deste conflito, revela à CNN que a aldeia onde a família vivia foi dizimada. “Os helicópteros disparavam contra nós, os soldados de Myanmar abriam fogo aos cidadãos. Os meus avós foram queimados até à morte. Não podíamos ter ficado em casa e fugimos para a floresta.”
“Só o rio é que sabe”
Alam separou-se da família durante a viagem para o Bangladesh pela floresta. Escapou à perseguição dos soldados de Myanmar, mas a família não teve a mesma sorte. Depois de conseguir atravessar o rio Naf, que faz a divisão entre os dois países, viu a imagem do filho e soube que o resto da família não tinha conseguido fazer a travessia.
“Quando vejo a fotografia sinto que preferia morrer. Não vejo nenhum propósito em viver neste momento. Não tenho mais ninguém. Os meus dois filhos e a minha mulher morreram, está tudo acabado”, desabafa Alam, que se encontra há um mês no campo de refugiados de Leda, em Teknaf, região no sul do Bangladesh.
A história desta família destruída pela perseguição tem sido recorrente nesta região do globo. A Organização Internacional para a Migração (IOM na sigla inglesa), a agência da ONU para as migrações, estima que mais de 34 mil pessoas tenham passado a fronteira entre o norte de Myanmar e o Bangladesh nas últimas semanas e meses. “Só o rio é que sabe quantos corpos de Rohingyas ficaram para trás”, diz Alam.
O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados regista dois campos de refugiados com cerca de 32 mil pessoas a necessitarem de assistência médica, alimentar e sanitária.
Mas o Governo do Bangladesh garante que mais de 50 mil refugiados Rohingya fizeram a travessia entre os dois países, ao longo dos últimos meses.
Ainda em recuperação após a perda dos filhos e da mulher, Alam confessa que apesar de não haver medo e perseguições, a vida não é fácil no Bangladesh. “Não temos casa, não temos comida. As pessoas estão a viver neste campo há muito tempo”.
Vídeo no centro da polémica
Em resposta à história de Alam, um oficial do Governo classifica o testemunho como “falso” e “propaganda” e que a única operação militar ocorrida no norte de Rakhine está relacionada com a identificação de suspeitos da morte de nove polícias na fronteira com o Bangladesh, no passado dia 9 de outubro.
Os militares iniciaram desde logo uma campanha de “contra-insurreição” tendo como alvo os civis Rohingya, com o Governo a negar repetidamente as acusações de violação dos Direitos Humanos. Mas um vídeo publicado no Facebook no passado sábado veio dar um novo fôlego às acusações.
O vídeo, com pouco mais de um minuto, mostra vários polícias a espancarem dois homens desarmados, em Rakhine, junto à fronteira com o Bangladesh. Na sequência do vídeo, quatro polícias foram detidos pelas autoridades.
Carta ao Conselho de Segurança
Aung San Suu Kyi, vencedora do Nobel da Paz em 1991, ocupa vários cargos de destaque no país, incluindo o de conselheira principal e de ministra dos Negócios Estrangeiros, tem sido alvo de críticas por parte da comunidade internacional, que a acusa de inação perante a perseguição étnica dos Rohingya.
Ministra indonésia dos Negócios Estrangeiros (à esquerda) com Aung San Suu Kyi (à direita). Foto: Soe Zeya Tun - Reuters
Numa carta aberta enviada na semana passada ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, um grupo de personalidades, incluindo antigos laureados com o Prémio Nobel da Paz, chama à atenção para a situação em Rakhine.
“Uma tragédia humana que se estende à limpeza étnica e crimes contra a humanidade está a acontecer no Myanmar. Milhares de pessoas já fugiram para o Bangladesh, muitas são obrigadas a voltar para trás. Alguns peritos avisaram para o possível genocídio. Tem todos os traços de tragédias recentes do passado – Ruanda, Darfur, Bósnia, Kosovo”.
“Sem evidências” de genocídio
Perante a pressão de organizações internacionais, o Governo de Myanmar destacou uma comissão de investigação, que concluiu esta quarta-feira num relatório intercalar que não existem sinais de genocídio.
Segundo o correspondente da BBC em Myanmar, o documento não inclui qualquer referência às alegadas mortes provocadas pelas forças de segurança como uma espécie de “castigo coletivo” pelas mortes de polícias em outubro.
O relatório descarta as alegações de limpeza étnica vindas a público, argumentando que ainda existem muçulmanos Rohingya a viver na região de Rakhine e que os edifícios de culto islâmico ainda não foram destruídos.
Prosseguem no entanto as investigações sobre as denúncias de detenções arbitrárias e tortura. Espera-se que a comissão apresente o relatório final até ao fim de janeiro.