Planalto confirma. Bolsonaro incentiva militares a comemorarem ditadura

por RTP
Adriano Machado, Reuters

O Presidente brasileiro deu luz verde ao Ministério da Defesa para celebrar da forma que entender os 55 anos do golpe militar que derrubou o presidente João Goulart para inaugurar uma ditadura que atravessou três décadas (1964-1985). Sem previsão de qualquer evento no Palácio do Planalto, o porta-voz da Presidência confirmou a ordem e lembrou que Bolsonaro não considera o derrube de 1964 como um golpe.

A indicação do Presidente para a comemoração do golpe militar de 1964 está a ser passada a todos os quartéis brasileiros, mas é precisamente de dentro da hierarquia militar que partem as maiores cautelas quanto às possíveis comemorações.

O porta-voz da Presidência adiantou que as festividades serão “aquilo que os comandantes acharem, dentro das suas respectivas guarnições e dentro do contexto, que devam ser feitas”.

De acordo com o jornal brasileiro Estadão, generais na reserva pedem discrição nas eventuais comemorações, face à tensão política em que o país vive desde a eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência.

Tratando-se do executivo que mais militares integra em cargos ministeriais desde 1985, a comemoração dos dias de ditadura acaba por ser um facto natural na agenda de Bolsonaro e do programa de festas das Forças Armadas.

Em 2011, a então Presidente Dilma Rousseff emitiu uma orientação no sentido de a data não ser assinalada nas unidades militares do país. A Presidente tinha sido ela própria uma militante torturada no regime ditatorial. Numa prova da sua orientação extremista, ainda enquanto deputado, na votação para o impeachment de Dilma Rousseff, Jair Bolsonaro fez o elogio público do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, dando-lhe o epíteto de “o pavor de Dilma Rousseff”. Mais tarde, Bolsonaro considerou o coronel um “herói”.

O tema das comemorações poderá voltar a avivar o debate político relativamente às ideias de extrema-direita de Bolsonaro. É ainda hoje, trinta anos depois do fim da ditadura militar, um tema fraturante na sociedade brasileira. Recentemente, um tribunal de São Paulo desobrigou a família do coronel Brilhante Ustra de pagar a indemnização devida à família de um jornalista torturado e morto sob as ordens daquele militar, chefe do Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) entre 1970 e 1974. Luiz Eduardo Merlino era jornalista e tinha 22 anos quando, em 1971, foi torturado durante 24 horas e atirado para a solitária, onde três dias depois morreu de gangrena provocada pelos ferimentos da tortura.

Ustra liderava o departamento de repressão, tendo ao longo dos anos sido reconhecido por centenas das vítimas torturadas sob as suas ordens. No caso do jornalista Luiz Eduardo Merlino, aquele que é dito como “o maior torturador da ditadura” não foi ilibado pelo tribunal, sendo apenas que os juízes aceitaram o argumento da família de que o crime já tinha prescrito à data do julgamento.

O porta-voz do Presidente explicou entretanto que Jair Bolsonaro “não considera 31 de março de 1964 um golpe militar, quando sociedade civil e militares [se uniram para] recuperar e recolocar o nosso País no rumo. Salvo melhor juízo, se isso não tivesse ocorrido, hoje nós estaríamos tendo algum tipo de governo aqui que não seria bom para ninguém”.
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