PM de transição demarca-se do passado e afasta "presidentes ocultos" na Guiné-Bissau
O primeiro-ministro de transição da Guiné-Bissau defende que o país entrou numa nova fase institucional que "não admite a permanência de presidentes ocultos" ou tutelas políticas informais e admitiu ser o líder do Partido Popular Guineense.
As posições de Ilídio Vieira Té foram transmitidas numa longa entrevista exclusiva à revista Forbes África Lusófona, na qual, entre outros temas, abordou frontalmente e pela primeira vez a sua relação com o ex-presidente guineense Umaro Sissoco Embaló.
Questionado sobre a proximidade que manteve com Umaro Sissoco Embaló, de quem foi ministro das Finanças e diretor de campanha eleitoral, Vieira Té recusou apagar o passado, mas estabeleceu linhas vermelhas quanto ao presente e ao futuro: "Nunca tive necessidade de negar aquilo que faz parte do meu percurso político. (...) Existiu confiança política e institucional entre nós e não considero sério reescrever hoje essa parte da história apenas porque as circunstâncias políticas mudaram. Mas uma coisa é reconhecer o passado; outra, completamente diferente, é permanecer politicamente subordinado ao passado".
O primeiro-ministro reforçou que, desde que assumiu a chefia do Governo na sequência da transição em novembro de 2025, responde perante o Estado e o povo guineense, e "não perante antigos líderes ou estruturas partidárias".
"Com o Presidente Umaro Sissoco Embaló mantenho o respeito que deve existir entre pessoas que trabalharam juntas... Isso não significa tutela política, dependência ou obrigação de concordância. Hoje, as minhas decisões enquanto primeiro-ministro são determinadas por aquilo que considero ser o interesse da Guiné-Bissau", declarou.
Na entrevista à Forbes África Lusófona, o primeiro-ministro de transição abordou, pela primeira vez, a criação do Partido Popular Guineense (PPG), tendo admitido ser o líder do projeto, que assegurou não servir para dar cobertura a Sissoco Embaló.
Nos meios políticos e nas redes sociais guineenses, Embaló tem sido apontado como sendo o cabecilha do novo partido e Ilídio Vieira Té seria apenas a capa.
"No PPG não haverá presidentes ocultos nem centros de decisão paralelos (...). O PPG não foi criado para servir de instrumento a ninguém nem para funcionar como extensão, substituto ou plataforma de qualquer [outra força]. (...) O PPG deve construir a sua própria identidade, apresentar o seu programa ao país e estabelecer alianças (...) com base em princípios, programas e interesses nacionais, e não em fidelidades pessoais", sublinhou Vieira Té.
O político observou que o novo partido surge após "uma profunda reflexão" sobre os caminhos que a Guiné-Bissau precisa trilhar "na nova etapa", em que, disse, irá basear-se na promoção da competência, responsabilidade, proximidade com os cidadãos, justiça social, modernização económica e patriotismo.
Ilídio Vieira Té afirmou ter assumido o poder "num dos momentos mais delicados" da história recente do país e que elegeu como principal objetivo da transição a salvaguarda do Estado e a preparação de "bases sólidas" para o regresso à normalidade institucional através de eleições.
O Presidente de transição, general Horta Inta-a, marcou as eleições legislativas e presidenciais para o dia 06 de dezembro próximo.
Questionado sobre se pretende apresentar-se como candidato às eleições presidenciais, Vieira Té não escondeu a sua "disponibilidade permanente" para servir a Guiné-Bissau onde considerar que pode ser útil, mas sublinhou que uma candidatura presidencial "é uma decisão demasiado importante para ser tratada como mera ambição pessoal ou anunciada através de especulações".
Reiterou que a sua prioridade absoluta e primeira responsabilidade no momento é a chefia do Governo da Guiné-Bissau e a conclusão responsável do processo de transição.
Ilídio Vieira Té esclareceu, contudo, que, quando existir uma decisão formal sobre essa matéria, será tomada de forma transparente, no estrito quadro das instituições partidárias e das leis da República.
Instado a comentar a recente aprovação de uma nova Constituição, que, basicamente, reforçou os poderes do Presidente da República, o primeiro-ministro observou que a medida por si só não trará mudanças no país.
"Podemos escrever a melhor Constituição do mundo. Se continuarmos a transformar adversários em inimigos, instituições em instrumentos partidários e divergências políticas em crises de Estado, continuaremos a ter problemas", advertiu.
Os militares guineenses protagonizaram um golpe de Estado em 26 de novembro de 2025, um dia antes da publicação dos resultados de eleições legislativas e presidenciais, e afastaram do poder o então Presidente, Umaro Sissoco Embaló.
Criaram um Conselho Nacional de Transição (CNT), que assumiu as competências do parlamento, e nomearam Ilídio Vieira Té primeiro-ministro e ministro das Finanças.
A oposição considerou que se tratou de um golpe de Estado encenado para permitir que Sissoco Embaló, que vive regularmente em Marrocos desde o golpe, regresse ao poder através de novas eleições presidenciais e legislativas marcadas pelos militares para 06 de dezembro.