PM guineense avisa que país "não é quintal" de Portugal
O primeiro-ministro de transição guineense, Ilídio Vieira Té, afirmou hoje que a Guiné-Bissau "não é quintal de Portugal" e avisou que haverá "resposta adequada" no dia em que o assunto do país africano for debatido no parlamento português.
As declarações de Ilídio Vieira Té foram feitas no discurso de inauguração das obras de dragagem do porto de Bissau e transmitidas pela comunicação social local.
O primeiro-ministro de transição guineense afirmou que o país é governado desde a sua independência, em 1973, pelos seus filhos e que não aceitará ordens de ninguém.
"Desde 1973 que ninguém manda aqui, e a Guiné-Bissau não é anexo de Portugal, nem quintal, nem da CPLP [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa], razão pela qual autossuspendemos o nosso país dessa organização", afirmou Vieira Té.
O Governo de transição anunciou a suspensão de "todas as suas atividades" na CPLP, "com efeito imediato", a 15 de dezembro, dez dias depois do Conselho de Ministro da organização lusófona ter recomendado aos chefes de Estado a suspensão do país neste organismo.
O dirigente guineense avisou hoje que haverá "resposta adequada" no dia em que o assunto do país for debatido no parlamento português.
"Dizer-vos que na Guiné-Bissau quem manda são os guineenses (...) nem o ministro dos Negócios Estrangeiros português, nem é Marta Temido [eurodeputada socialista], e nem ninguém. Andamos com os nossos pés e pensamos com as nossas cabeças", declarou.
O primeiro-ministro de transição guineense disse ainda ter escutado o chefe da diplomacia portuguesa, Paulo Rangel, afirmar que o país não terá as sanções levantadas no âmbito da CPLP enquanto os "presos políticos não forem libertados".
O presidente do último parlamento eleito, Domingos Simões Pereira, que é também líder do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), encontra-se detido, sem culpa formada, desde o dia 26 de novembro na sequência do golpe de Estado militar, e várias figuras políticas da oposição estão com a liberdade condicionada, encontrando-se escondido em local incerto.
Ilídio Vieira Té afirmou que as atuais autoridades da Guiné-Bissau "não pediram o levantamento de sanções" da CPLP e insistiu que foi o país que se afastou da organização lusófona.
O responsável abordou também as ameaças da Comunidade Económica de Estados da África Ocidental (CEDEAO) de aplicar sanções ao país caso o período de transição, proposto pelos militares para 12 meses, não seja encurtado e não seja formado um Governo civil inclusivo.
Segundo Ilídio Vieira Té, a Guiné-Bissau "é membro de pleno direito com quotas em dia" na CEDEAO, "mais do que muitos países".
"Portanto, quem manda aqui é o Presidente de transição, Horta Inta-a, o primeiro-ministro, sou eu, Ilídio Vieira Té, e temos um Governo que governa com as suas ideias", declarou.
Os militares tomaram o poder há cerca de dois meses na véspera da divulgação dos resultados das eleições gerais, presidenciais e legislativas, e o processo eleitoral foi interrompido.
O Presidente cessante e recandidato a um segundo mandato, Umaro Sissoco Embaló, foi deposto e saiu do país, enquanto o candidato da oposição, Fernando Dias, que reclamou vitória, terá procurado refúgio na Embaixada da Nigéria em Bissau.
No golpe de Estado, que várias vozes nacionais e internacionais consideraram ter sido uma encenação do Presidente cessante, foram detidos vários políticos, entre eles Domingos Simões Pereira.
O líder e o partido foram excluídos das eleições pelo Supremo Tribunal de Justiça e decidiram apoiar a candidatura de Fernando Dias, presidente de uma das alas do Partido de Renovação Social (PRS) que se dividiu, com uma fação fiel a Dias e outra apoiante de Sissoco Embaló.
Os militares anunciaram que o período de transição seria por um ano e uma das primeiras iniciativas legislativas foi a revisão da Constituição, conferindo mais poderes ao Presidente da República.
Hoje, o Presidente de transição anunciou a realização de eleições gerais a 06 de dezembro deste ano.
A Guiné-Bissau foi suspensa de várias organizações internacionais que pedem a retoma da ordem constitucional e a libertação dos presos políticos, nomeadamente, a União Africana, a CEDEAO e a CPLP, que substituiu a Guiné-Bissau na presidência da organização, que ocupava até 2027, por Timor-Leste.