Polícia da Nicarágua assalta sede episcopal e detém bispo

por Graça Andrade Ramos - RTP
O bispo Rolando Álvarez foi detido no Palácio Episcopal da Diocese de Matagalpa, no norte da Nicarágua. Na imagem rezava de joelhos em plena rua dia 4 de agosto de 2022, vigiado pelas forças policiais, momentos antes de ficar sob prisão domiciliária DR

A polícia nicaraguense forçou durante a madrugada de hoje a entrada no Palácio Episcopal da Diocese de Matagalpa, no norte da Nicarágua, e deteve o bispo Rolando Álvarez e sete dos seus colaboradores, que ali se encontravam escondidos desde 04 de agosto.

"Urgente! A Polícia Nacional acabou de entrar na Curia Episcopal da nossa Diocese de Matagalpa", escreveu aquela sede eclesiástica nas suas redes sociais. Rolando Álvarez, de 55 anos, bispo da Diocese de Matagalpa e administrador apostólico da Diocese de Estelí, é acusado pela polícia nicaraguense de tentar "organizar grupos violentos", alegadamente "com o propósito de desestabilizar o Estado da Nicarágua e atacar as autoridades constitucionais".

A polícia nicaraguense não apresentou até agora provas das acusações contra o bispo.

O assalto policial ocorreu pelas 03h00 da manhã, hora local, e marcou o fim de duas semanas de cerco à Diocese e de detenção domiciliária arbitrária do bispo.

Rolando Álvarez e os restantes colaboradores - um leigo do pessoal diocesano, dois seminaristas, um diácono e quatro padres - terão sido levados para Manágua e encontram-se em parte incerta.

A polícia afirma que o bispo está sob prisáo domiciliária e que os outros terão sido detidos na prisão de El Chipote. Para trás ficou o monsenhor Oscar Escoto, como "autoridade eclesiástica".

Rolando Álvarez é um prelado conhecido pela sua oposição ao regime sandinista de Daniel Ortega. A resistência em Matagalpa está a emocionar a comunidade cristã da Nicarágua, que pede orações pelo bispo.
ONU expressa "preocupação"
A conferência episcolpal da Costa Rica já se solidarizou com a Igreja da Nicarágua, apelando ao "respeito pela liberdade religiosa" afirmando os bispos que "rezam" pelo "dom da Paz" à "nossa nação irmã".

Duas dioceses espanholas expressaram igualmente a sua solidariedade com a diocese de Matagalpa.

O porta-voz do secretário-geral das Nações Unidas expressou "preocupação pelo encerramento de espaços democráticos e pelas ações contra organizações da sociedade civil na Nicarágua, incluindo as da Igreja Católica".

O porta-voz, Farhan Haq, mencionou especificamente "o assalto à residência do Bispo Álvarez em Matagalpa".
A ONU também exortou à libertação de todas as pessoas detidas "arbitrariamente" nos últimos meses na Nicarágua.

No passado domingo, durante a distribuição de imagens de Nossa Senhora de Fátima trazidas de Portugal para as dioceses da Nicarágua, a menção de Matagalpa foi saudade e aplaudida pelos fiéis de forma especial.
Uma sobrinha do bispo revelou na rede Twitter que a casa dos pais de Rolando Álvarez, seus avós, estava também a ser alvo de buscas policiais. Perseguição intensificou-se
A perseguição à Igreja Católica da Nicarágua tem vindo a intensificar-se há vários anos, com os bispos a denunciar a deriva autoritária do Governo de Ortega já em 2014.

A onda repressiva começou em grande medida após os protestos de 2018 e agudizou-se nas semanas que antecederam as eleições presidenciais de 2021.

Destas eleições saiu pela quarta vez consecutiva vitorioso Daniel Ortega, depois de mandar prender vários pré-candidatos da oposição à corrida presidencial.
A conferência episcopal nicaraguense tem denunciado especialmente o uso indiscriminado da força por parte do regime contra a oposição, desde manifestações populares a exigirem mudanças em 2018. A Igreja Católica apoiou os manifestantes e tem sofrido por isso represálias, as quais incluem bispos, padres, religiosos e fiéis leigos.

Em resultado da repressão, o antigo bispo auxiliar de Manágua, Sílvio Baez, exilou-se nos Estados Unidos quando se soube que Ortega tinha alegadamente ordenado o seu assassínio.

Em março deste ano, o núncio apostólico arcebispo Waldemar Stanislaw Sommertag foi igualmente expulso, levando o Vaticano a expressar “incompreensão, surpresa e dor”.

Em julho, 18 missionárias das Irmãs da Caridade, congregação fundada pela Madre Teresa de Calcutá, foram igualmente expulsas do país. Nas últimas semanas foram ainda denunciados assaltos a Igrejas enquanto se celebrava a Missa e a perseguição de sacerdotes e de leigos.

Há poucos dias o regime Sandinista forçou o encerramento de estações de rádio dirigidas pela diocese de Matagalpa.
Oração na rua
Dia cinco de agosto, a Policia Nacional da Nicarágua acusou altos dignitários da Igreja católica de Matagalpa – em particular o bispo – de usar os meios de comunicação e as redes sociais para “tentar organizar grupos violentos, incitando-os a actos de ódio contra a população, criando uma atmosfera de ansiedade e de desordem, perturbando a paz e a ordem da comunidade”.

O bispo Rolando Álvarez tinha ficado cercado na sua residência juntamente com cinco sacerdotes, dois seminaristas e três leigos desde dia quatro de agosto, sem ser permitida a entrada de alimentos ou medicamentos. O Palácio Episcopal esteve até esta madrugada cercado pela polícia e sob vigilância aérea através de drones. Quinta-feira, numa mensagem enviada através das redes sociais e depois de rezar o rosário, o bispo afirmou que a sua vida e a dos seus companheiros estava "nas mãos de Deus".

Dia quatro de Agosto, antes de ficar cercado no Palácio Episcopal, o bispo rezou na rua e saiu em procissão com o Santíssimo Sacramento nas mãos depois de ter sido impedido pela polícia na cúria para celebrar a Missa, como de costume.

“Saí e já havia um grupo de fiéis que estavam a fazer a adoração ao Senhor. [A polícia] estava a revista-los, pedia a carteira de identidade, mas não os deixavam entrar [na cúria]; e quando saí já havia um grupo de fiéis a cantar ao Senhor, então mandei trazer Jesus Sacramentado para que pudéssemos rezar aqui, para abençoar os fiéis”, explicou monsenhor Rolando Álvarez.

(com Lusa)
 
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