Polícias que mataram menino de três anos vão responder pelo crime - Governador Rio deJaneiro

*** Fabíola Ortiz, da Agência Lusa ***

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Rio de Janeiro, 09 Jul (Lusa) - O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, afirmou que os dois polícias militares que mataram João Roberto Amorim Soares, de três anos, no domingo, serão expulsos da corporação e vão responder criminalmente.

"Isso foi uma atrocidade cometida contra inocentes. Os polícias responderão, não só do ponto de vista administrativo, mas do ponto de vista criminal", disse Sérgio Cabral, terça-feira, em conferência de imprensa.

O governador afirmou que os polícias foram incompetentes e não souberam "agir com discernimento" no momento de tensão.

A Secretaria de Segurança Pública do Rio considerou a acção como "desastrosa".

Na noite de domingo, o carro onde João Roberto estava junto com a mãe o irmão de nove meses, no bairro da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, foi alvejado com cerca de 20 tiros por polícias militares que confundiram o veículo com um que tinha sido usado por suspeitos de terem cometido um assalto na região.

O menino que voltava de uma festa de aniversário estava no banco de trás do carro e foi atingido por três tiros, um deles na nuca, que resultou na sua morte, na manhã de segunda-feira.

O seu enterro, que se realizou terça-feira no Cemitério do Caju, foi marcado por forte comoção e revolta dos pais.

Cerca de 300 pessoas, entre parentes, amigos da família e representantes de movimentos sociais, estiveram presentes no funeral para prestar uma última homenagem ao menino e clamar por "justiça".

João Roberto, que iria completar quatro anos no próximo dia 29 de Julho, foi enterrado sob uma salva de palmas. Ele estava vestido com a roupa do homem aranha, seu super-herói favorito.

Indignado, o pai do menino, o motorista de táxi Paulo Roberto Barbosa Soares, chamou os polícias de assassinos e, revoltado, afirmou que a sociedade precisa de protecção.

"Nós não merecemos isso, é um absurdo. Ninguém tem o direito de matar ninguém. O Estado não tem carta branca para matar ninguém. Aqui não há pena de morte, é por isso que a gente quer as leis para as pessoas serem presas e processadas. Se a instituição está falida, vamos melhorar, mas não meter monstros na rua para matar gente, gritou, em desabafo.

E, numa última despedida, Paulo Roberto disse que amava muito o filho. "Você não vai morrer dentro do meu coração, nunca vou te esquecer meu filho. Você não merecia isso. Foi uma cobardia o que fizeram".

Os dois polícias militares envolvidos na morte de João Roberto, William de Paula e Elias Gonçalves da Costa Neto, foram indiciados por homicídio qualificado e tiveram a prisão preventiva decretada por 30 dias pelo delegado que investiga o caso.

Os polícias alegaram que estavam a perseguir um carro, de onde atiraram contra eles, e que o veículo onde estava João Roberto e sua família ficou no meio do fogo cruzado.

Segundo afirmou o delegado Walter de Oliveira à imprensa local, após analisar as fitas gravadas por um circuito interno de segurança de um edifício próximo do local do crime, "os polícias atiraram com a intenção clara de matar, talvez não tivessem a intenção de matar uma criança, mas matar os ocupantes do carro, e não deram sequer hipótese de defesa".

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