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Poluição aumenta problemas de saúde mesmo quando limites da OMS são respeitados, conclui estudo
De acordo com um estudo publicado esta semana na BMJ, o número de problemas de saúde ligados à poluição do ar pode ser bastante mais elevado do que se pensava. Os investigadores concluíram que, à medida que o ar fica mais poluído, há mais internamentos nos hospitais por insuficiência cardíaca ou infeções urinárias, entre outras complicações de saúde. Os problemas surgem mesmo nos dias em que a qualidade do ar se encontrava dentro dos limites definidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
O estudo em causa, citado pelo jornal The Guardian e publicado esta quarta-feira no British Medical Journal, partiu da análise de mais de 95 milhões de casos entre 2000 e 2012 por pacientes em hospitais norte-americanos abrangidos pelo Medicare, um programa de saúde que inclui pessoas com 65 anos ou mais.
Estes dados foram cruzados com os níveis de poluição, em especial de uma partícula fina conhecida por PM2.5, produzida por veículos, por exemplo.
Ainda que o estudo se foque apenas num componente da poluição do ar, foi possível concluir que o impacto na saúde se reflete de forma mais evidente do que se pensava, mesmo com uma exposição de curto-prazo à poluição atmosférica.
Por exemplo, os dados mostram que um pequeno aumento de 1 micrograma por metro cúbico de PM2,5 em dois dias seguidos conduziu a um aumento imediato no número de pacientes com mais de 68 anos admitidos nos hospitais.
“[A poluição] tem um efeito mais sistémico em múltiplos processos fisiopatológicos, como a inflamação, infeção e distúrbios eletrolíticos”, sublinha.
Ainda que o nível de risco de internamento seja pequeno (0,14 por cento no caso da insuficiência cardíaca), o estudo indica que o aumento de 1 micrograma de PM2,5 por metro cúbico ocorreu em cada um dos locais estudados pelo menos em 122 dias por cada ano, ou seja, mais de um terço dos dias do ano.
Para além do maior número de internamentos, os dados mostram também um aumento anual no número de mortes relacionadas com a poluição (634 por ano) e ainda um incremento anual de custos na ordem dos 100 milhões de dólares com cuidados de saúde após situações agudas de doença.
Limites da OMS devem ser "revistos e atualizados"
De notar que estas tendências se mantiveram inalteradas mesmo nos dias em que a qualidade do ar nos locais estudados respeitava os limites de poluição definidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Por isso, a equipa de investigação conclui no estudo que as diretrizes “devem ser revistas e atualizadas”.
De acordo com os dados da OMS, cerca de 90 por cento da população mundial que vivia em cidades no ano de 2016 estava exposta a níveis de PM2,5 superiores aos limites propostos pela organização.
“Estas linhas orientadoras devem ser revistas, até porque mesmo os 9 por cento de população que vive com uma poluição de ar que respeita os limites da OMS pode estar a ser substancialmente afetada pela concentração de poluição atmosférica”, refere Ioannis Bakolis, do King’s College de Londres, em declarações ao jornal The Guardian.
A investigação vai ao encontro de um estudo anterior, publicado no início do ano, que associa elevados níveis de poluição a várias doenças e complicações, desde demência, ataques cardíacos, a cancro no cérebro, aborto espontâneo ou problemas de saúde mental.
“As partículas ultrafinas passam pelos pulmões, são captadas pelas células e transportadas pela corrente sanguínea, chegando a praticamente todas as células do corpo”, concluía na altura a investigação.
Os dados disponibilizados pela Agência Europeia do Ambiente (AEA) mostram que, em Portugal, tal como no resto da Europa, a concentração de partículas finas tem vindo a diminuir nos últimos 30 anos, sendo que os níveis de poluição são menos animadores junto aos centros urbanos.
Ainda assim, de acordo com os dados da AEA relativos a 2016, o número de mortes prematuras relacionadas com a partícula PM2,5 chegou a 4.900 pessoas em Portugal, enquanto na totalidade dos 28 países da União Europeia ficou associada à morte prematura de 374 mil pessoas.
De acordo com a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), a concentração média anual de PM2,5 não deve ultrapassar o valor limite de 25 microgramas por metro cúbico. Mas o objetivo é de diminuir ainda mais este valor, uma vez que “não foi possível definir um limiar abaixo do qual as PM2,5 não constituem problemas para a saúde humana”.