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Guerra na Ucrânia
"Porta das traseiras". Max, uma aplicação russa para espiar os cidadãos
Uma investigação mostra que dezenas de milhões de pessoas estão a ser forçadas a usar uma plataforma que funciona como uma "porta das traseiras" nos seus dispositivos.
Nos últimos 18 meses, dezenas de milhões de russos foram obrigados a instalar uma nova aplicação nos seus telemóveis — um botão de cor azul-violeta concebido para mensagens e pagamentos, chamado Max.As autoridades, explica a edição online do jornal britânico The Guardian, promoveram-na como uma alternativa patriótica ao Telegram
e ao WhatsApp; celebridades russas fizeram-lhe propaganda em vídeos de
rap e sketches de comédia. Este verão, tornou-se a aplicação de mensagens mais utilizada no país.
A aplicação é um produto da VKontakte, a empresa russa de redes sociais que mantém laços profundos com o Estado russo. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, teria uma participação indireta no Max.
No entanto, enquanto o WeChat foi desenvolvido ao longo de décadas, em sintonia com outros mecanismos de controlo da internet na China, o Max foi imposto a uma população que, até então, usufruía de um acesso à internet em grande parte livre.Autoritarismo digital
Investigações revelaram um panorama mais completo das poderosas capacidades de vigilância do Max.
"Temos estudado a escalada do controlo da internet na Rússia na última década", disse Ensafi. "O que o Max oferece é a tática mais engenhosa — e também a mais assustadora — alguma vez adotada pelos governos autoritários" para vigiar os seus cidadãos. Equivale a uma "porta das traseiras" para todo o ecossistema de miniaplicações no dispositivo de cada utilizador, afirmou Roya Ensafi, professora associada de ciência da computação na Universidade de Michigan.
O Max é "um modelo que qualquer governo pode seguir" rumo ao autoritarismo digital, alertou Ensafi. “Representa a vanguarda do que governos como os do Irão, do Cazaquistão e da Índia poderão tentar alcançar em breve.”
A equipa de Ensafi conseguiu descarregar a versão da aplicação utilizada na Rússia. Descobriram que o Max pode capturar o ecrã dos dispositivos dos utilizadores — e o conteúdo dos seus miniaplicativos — sem que eles saibam.
A aplicação consegue aceder a todas as informações armazenadas nestes miniaplicativos, incluindo mensagens e pagamentos, e pode fazer-se passar pelos utilizadores sem o seu conhecimento.
Pode até injetar código em miniaplicações — o que significaria, segundo Ensafi, que o Governo russo poderia usar o Max para lançar ataques cibernéticos.
A investigação de Roya Ensafi traz novos esclarecimentos a um debate em curso sobre as capacidades de vigilância do Max.
Um ponto crucial, é que não consegue invadir aplicações como o Telegram e o WhatsApp, caso os utilizadores as tenham instaladas. No entanto, a Rússia baniu ambos.
Muitos russos que trabalham em instituições estatais ou nas suas imediações foram, na prática, obrigados a utilizar o Max. Autoridades, funcionários do sector público, estudantes universitários, professores e até alunos de escolas enfrentaram pressões para migrar as suas comunicações para a plataforma.
Um professor de uma escola em Moscovo relatou que a equipa da instituição recebeu ordens para mudar para o Max, seguindo instruções das autoridades municipais.
"O diretor da escola convocou-nos em março passado e foi direto: a partir de agora, tudo será feito pelo Max. Isto incluiu conversas com os pais, envio de trabalhos de casa e outras comunicações escolares", afirmou o professor ao jornal britânico The Guardian.
"Na verdade, não há opção para dizer não; por isso, no final do dia, acaba por usar a aplicação", acrescentou.
Daniil, um estudante universitário de São Petersburgo, contou que descarregou o Max a contragosto pouco antes do início do ano letivo, depois de ter sido informado de que os alunos teriam o acesso negado aos edifícios da universidade ou aos dormitórios caso não apresentassem um código QR gerado pela aplicação.
Disse ter receios quanto à segurança e à privacidade da aplicação, mas sentiu que não tinha grande escolha se quisesse continuar a frequentar o campus.Entre a elite russa, o uso do Max parece ser, muitas vezes, algo meramente simbólico; o Telegram e o Signal continuam a ser amplamente utilizados para a comunicação quotidiana, segundo várias figuras influentes e empresários de destaque.
Uma pessoa do círculo íntimo do Kremlin relatou que ele e vários amigos compraram segundos dispositivos apenas para instalar o Max, enquanto continuavam a utilizar os seus dispositivos principais e aplicações de mensagens preferidas como antes.
“É tudo para inglês ver. Ninguém na política o utiliza realmente”, disse, sob anonimato.Semelhante ao Telegram
O Max ainda não substituiu o Telegram como uma das principais fontes de notícias para os russos. Os canais públicos — utilizados pelos órgãos de comunicação social, bloggers e autoridades para divulgar notícias e comentários a grandes audiências — continuam a ser muito menos desenvolvidos no Max, onde apenas um pequeno número de canais conquistou audiências comparáveis às dos maiores canais do Telegram.
Vários utilizadores do Max contactados pelo Guardian disseram que a aplicação se assemelha muito ao Telegram - há muito tempo a plataforma de mensagens mais popular da Rússia - em termos de design e funcionalidade, mas havia preocupações generalizadas quanto à privacidade e à vigilância.
“Usar o Max dá a sensação de que nunca se sabe ao certo quem mais pode estar a observar”, afirmou Nikolai, um consultor de 34 anos de Moscovo.
Embora a aplicação parecesse moderna e bem acabada, Nikolai disse que havia sempre algo ligeiramente sinistro na sua utilização.
“Acaba por se usar cada vez mais porque as alternativas estão a tornar-se mais difíceis de aceder. Mas a sensação ainda não é boa.”
O sucesso da Rússia em lançar rapidamente o Max deveria servir de “alerta”, acrescentou Roya Ensafi.
A China alcançou o seu atual estado de autoritarismo digital ao longo de 35 anos. Já a Rússia impôs estas restrições abrangentes -conduzindo as pessoas para uma internet controlada pelo Estado - em apenas uma década.
“O mundo está a mudar, a infraestrutura de comunicação privada está a mudar- e a ofensiva dos governos autoritários é muito agressiva”, frisou Roya Ensafi.
A aplicação é um produto da VKontakte, a empresa russa de redes sociais que mantém laços profundos com o Estado russo. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, teria uma participação indireta no Max.
O Max é a versão russa de uma "super-aplicação", combinando um ecossistema de serviços numa única plataforma.
Funciona como um contentor para várias "miniaplicações" que agora facilitam o dia-a-dia na Rússia — aplicações bancárias, um serviço de mensagens que visa substituir o Telegram e aplicações para serviços governamentais essenciais. O aplicativo mais conhecido do mundo é o WeChat, a plataforma chinesa que concentra tudo e facilita o controlo social exercido pelo Estado.
No entanto, enquanto o WeChat foi desenvolvido ao longo de décadas, em sintonia com outros mecanismos de controlo da internet na China, o Max foi imposto a uma população que, até então, usufruía de um acesso à internet em grande parte livre.Autoritarismo digital
Investigações revelaram um panorama mais completo das poderosas capacidades de vigilância do Max.
O Max é "um modelo que qualquer governo pode seguir" rumo ao autoritarismo digital, alertou Ensafi. “Representa a vanguarda do que governos como os do Irão, do Cazaquistão e da Índia poderão tentar alcançar em breve.”
A equipa de Ensafi conseguiu descarregar a versão da aplicação utilizada na Rússia. Descobriram que o Max pode capturar o ecrã dos dispositivos dos utilizadores — e o conteúdo dos seus miniaplicativos — sem que eles saibam.
A aplicação consegue aceder a todas as informações armazenadas nestes miniaplicativos, incluindo mensagens e pagamentos, e pode fazer-se passar pelos utilizadores sem o seu conhecimento.
Pode até injetar código em miniaplicações — o que significaria, segundo Ensafi, que o Governo russo poderia usar o Max para lançar ataques cibernéticos.
A investigação de Roya Ensafi traz novos esclarecimentos a um debate em curso sobre as capacidades de vigilância do Max.
Um ponto crucial, é que não consegue invadir aplicações como o Telegram e o WhatsApp, caso os utilizadores as tenham instaladas. No entanto, a Rússia baniu ambos.
Muitos russos que trabalham em instituições estatais ou nas suas imediações foram, na prática, obrigados a utilizar o Max. Autoridades, funcionários do sector público, estudantes universitários, professores e até alunos de escolas enfrentaram pressões para migrar as suas comunicações para a plataforma.
Um professor de uma escola em Moscovo relatou que a equipa da instituição recebeu ordens para mudar para o Max, seguindo instruções das autoridades municipais.
"O diretor da escola convocou-nos em março passado e foi direto: a partir de agora, tudo será feito pelo Max. Isto incluiu conversas com os pais, envio de trabalhos de casa e outras comunicações escolares", afirmou o professor ao jornal britânico The Guardian.
"Na verdade, não há opção para dizer não; por isso, no final do dia, acaba por usar a aplicação", acrescentou.
Daniil, um estudante universitário de São Petersburgo, contou que descarregou o Max a contragosto pouco antes do início do ano letivo, depois de ter sido informado de que os alunos teriam o acesso negado aos edifícios da universidade ou aos dormitórios caso não apresentassem um código QR gerado pela aplicação.
Disse ter receios quanto à segurança e à privacidade da aplicação, mas sentiu que não tinha grande escolha se quisesse continuar a frequentar o campus.Entre a elite russa, o uso do Max parece ser, muitas vezes, algo meramente simbólico; o Telegram e o Signal continuam a ser amplamente utilizados para a comunicação quotidiana, segundo várias figuras influentes e empresários de destaque.
Uma pessoa do círculo íntimo do Kremlin relatou que ele e vários amigos compraram segundos dispositivos apenas para instalar o Max, enquanto continuavam a utilizar os seus dispositivos principais e aplicações de mensagens preferidas como antes.
“É tudo para inglês ver. Ninguém na política o utiliza realmente”, disse, sob anonimato.Semelhante ao Telegram
O Max ainda não substituiu o Telegram como uma das principais fontes de notícias para os russos. Os canais públicos — utilizados pelos órgãos de comunicação social, bloggers e autoridades para divulgar notícias e comentários a grandes audiências — continuam a ser muito menos desenvolvidos no Max, onde apenas um pequeno número de canais conquistou audiências comparáveis às dos maiores canais do Telegram.
Vários utilizadores do Max contactados pelo Guardian disseram que a aplicação se assemelha muito ao Telegram - há muito tempo a plataforma de mensagens mais popular da Rússia - em termos de design e funcionalidade, mas havia preocupações generalizadas quanto à privacidade e à vigilância.
“Usar o Max dá a sensação de que nunca se sabe ao certo quem mais pode estar a observar”, afirmou Nikolai, um consultor de 34 anos de Moscovo.
Embora a aplicação parecesse moderna e bem acabada, Nikolai disse que havia sempre algo ligeiramente sinistro na sua utilização.
“Acaba por se usar cada vez mais porque as alternativas estão a tornar-se mais difíceis de aceder. Mas a sensação ainda não é boa.”
O sucesso da Rússia em lançar rapidamente o Max deveria servir de “alerta”, acrescentou Roya Ensafi.
A China alcançou o seu atual estado de autoritarismo digital ao longo de 35 anos. Já a Rússia impôs estas restrições abrangentes -conduzindo as pessoas para uma internet controlada pelo Estado - em apenas uma década.
“O mundo está a mudar, a infraestrutura de comunicação privada está a mudar- e a ofensiva dos governos autoritários é muito agressiva”, frisou Roya Ensafi.