Porta-voz de militares contestatários em Timor-Leste acredita em "solução justa"

O tenente Gastão Salsinha, porta-voz dos militares contestatários que desde segunda-feira estão concentrados junto ao Palácio do Governo, em Díli, acredita que está próxima uma "solução clara e justa" para as revindicações do grupo que lidera.

Agência LUSA /

Em declarações à Agência Lusa, o tenente Salsinha disse ter garantias do ministro dos Negócios Estrangeiros, José Ramos Horta, que a crise militar deverá estar resolvida quinta-feira.

"Queremos uma solução clara e justa e tenho esperança que amanhã (quinta-feira) tudo estará resolvido. Não é para voltar ao quartel", frisou.

As garantias resultam das intensas negociações realizadas na tarde e noite de terça-feira (hora local), em Díli, em que José Ramos Horta e o deputado Leandro Isaac se multiplicaram em reuniões com os contestatários e titulares de órgãos de soberania, disse à Lusa várias ligadas ao processo de mediação.

As declarações do porta-voz dos militares contestatários à Lusa foram feitas depois de Leandro Isaac ter voltado a reunir com o tenente Salsinha, na sequência de incidentes registados ao princípio da tarde no mercado de Taibessi, em Díli.

Nestes incidentes, que segundo a polícia provocaram apenas feridos ligeiros, um polícia, à civil, efectuou vários disparos, que provocaram uma correria desenfreada pelas apertadas rias do mercado.

O polícia foi entretanto detido.

Na confusão criada, grupos de jovens aproveitaram para atacar algumas bancas de venda, destruindo parte delas e ateando pequenos focos de incêndio, rapidamente apagado pelos bombeiros e pela população.

Depois de reunir com o tenente Salsinha, o deputado Leandro Isaac justificou à Lusa a sua presença no local na qualidade de "cidadão contribuinte para minimizar o problema que ameaça a estabilidade do país".

"Estamos próximos de uma solução, com garantia de justiça", sublinhou.

Quanto à sua presença no local da manifestação, para conferenciar com o tenente Salsinha, Leandro Isaac confirmou ter-se deslocado ao local para "acalmar a juventude, que se encontra junto dos peticionários", como são designados militares contestatários.

Relativamente ao que se passou em Taibessi, Leandro Isaac lamentou que "civis continuem com armas nas mãos" e salientou esperar que as autoridades "rapidamente tomem medidas para resolver esse problema e pedir responsabilidades às pessoas que têm a chave das armas", destacou, sem entrar em pormenores.

Entretanto, o chefe da diplomacia de Timor-Leste manteve hoje, ao princípio da tarde, um encontro com o corpo diplomático acreditado em Díli, ao qual antecipou o acordo que deverá ser divulgado quinta- feira e que porá fim à crise militar.

Fonte diplomática que participou na reunião disse à Lusa que para já será formada uma comissão, integrada por representantes da Presidência da República, Parlamento, Governo e Tribunal de Recurso (que tem funções de Tribunal Supremo), que disporá de 30 dias para identificar as queixas, e apontar soluções, dos contestatários.

Uma segunda comissão, a criar posteriormente, irá ajudar a elaborar uma Política de Defesa Nacional, que contemplará o futuro formato das forças armadas timorenses e apontará as missões destinadas à instituição.

As futuras forças armadas timorenses disporão de dois corpos com missões diferentes.

Parte das forças armadas serão preparadas para participar em operações de manutenção de paz, patrocinadas pelas Nações Unidas e outras organizações de âmbito regional.

Os restantes efectivos beneficiarão de formação adequada para actuar numa política de proximidade da população.

A crise militar em Timor-Leste saiu pela primeira vez à rua a 08 de Fevereiro, quando centenas de soldados, desarmados, se concentraram junto da Presidência da República, para que Xanana Gusmão, na qualidade de Comandante Supremo das Forças Armadas, ajudar a por cobro às alegadas medidas discriminatórias que eram alvo nas suas unidades.

Os soldados contestatários são maioritariamente "loromonu", ou seja, provenientes dos dez distritos mais ocidentais de Timor-Leste (Aileu, Ainaro, Bobonaro, Covalima, Díli, Er mera, Liquiça, Manatuto, Manufahi e Oecussi).

Os restantes três distritos, Lautém, Viqueque e Baucau, são designados por "lorosae".

No passado dia 16 de Março, o brigadeiro-general Taur Matan Ruak, anunciou aos deputados timorenses que os soldados, que então totalizavam já 591, ou seja cerca de 40 por cento do total de efectivos da instituição, eram considerados civis desde o início do mês, por terem reiteradamente recusado regressar às respectivas unidades.

Face a esta medida, avalizada pelo governo, os 591 decidiram realizar um protesto público, iniciado na passada segunda-feira, e que se tem pautado pela concentração junto ao Palácio do Governo.

A manifestação tem decorrido sem incidentes de maior, com o dispositivo de segurança montado pela Polícia Nacional de Timor-Leste (PNTL) a garantir a manutenção da lei e ordem públicas.

No primeiro dia a polícia deteve cinco indivíduos que tentaram protagonizar actos de provocação à manifestação, mas que não tiveram efeitos na continuação do protesto e que foram rapidamente sanados.

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