Praga de gafanhotos na Guiné-Bissau atinge já todo o país, situação é catastrófica

A praga de gafanhotos que assola a Guiné-Bissau desde Dezembro de 2004 afecta já todas as regiões do país e ameaça tornar-se uma catástrofe, pois muitas das principais culturas estão destruídas, afirmou hoje o director-geral da Agricultura guineense.

Agência LUSA /

Numa entrevista à RTPÁfrica, transmitida no programa Fórum, Marcelino Martins indicou que a Guiné-Bissau está sem meios para combater a praga e lembrou que os agricultores, que constituem 70 por cento da mão-de-obra activa, estão já em "desespero".

A praga de gafanhotos chegou à Guiné-Bissau a 19 de Dezembro último e, desde então, tem dizimado culturas, sobretudo no norte (regiões de Oio e Cacheu) e leste (Bafatá e Gabu), deixando os camponeses na penúria, afirmou.

Marcelino Martins evocou o exemplo de um incêndio de grandes proporções que lavrou na região leste do país, próximo de Gabu e junto à fronteira com o Senegal, que reflecte o desespero dos agricultores.

Inicialmente, os agricultores defenderam-se da praga queimando pneus velhos, obrigando-os a abandonar as áreas onde pousavam e se alimentavam.

Mas, à medida que os pneus se esgotavam, os gafanhotos acabavam por voltar, pelo que, em desespero, incendiaram a floresta.

O fogo descontrolou-se e alastrou a várias plantações, destruindo totalmente a produção de mais de quatro dezenas das pouco mais de 50 quintas existentes na região.

"Toda a produção de castanha de caju, arroz, mangas e hortaliças dessa região ficou destruída", sublinhou Marcelino Martins, admitindo que, na próxima estação, não será possível qualquer tipo de colheita.

Segundo o director-geral da Agricultura guineense, a situação agrava-se pelo facto de só existirem cinco viaturas com atomizadores com pesticidas, todas elas vindas do vizinho Senegal, o que torna impossível um combate eficaz.

Portugal e o Fundo das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) já disponibilizaram mais de 300 mil euros para apoiar o combate à praga, mas o dinheiro ainda não se traduziu, na prática, na aquisição de meios para combater a praga.

Marcelino Martins admitiu que a situação é ainda mais grave no arquipélago dos Bijagós, onde os gafanhotos têm "terreno livre" para avançar, uma vez que, nas ilhas, não há um único meio de combate.

"A praga chegou à ilha das Galinhas (próxima de Bissau) esta semana e, pouco depois, estendeu-se às restantes 11 ilhas", que constituem uma das principais regiões de produção da castanha de caju, a principal exportação da Guiné-Bissau, afirmou.

Segundo as previsões do Ministério da Agricultura guineense, as 90 mil toneladas de castanha caju exportadas em 2004 - a Guiné- Bissau é o quinto maior exportador mundial - não deverão ser atingidas nos próximos dois a três anos.

A razão prende-se com o facto de os gafanhotos estarem, já, numa fase de maturação, isto é, começou o período de acasalamento e as fêmeas já iniciaram o período da desova, que levará às larvas pouco depois do início da época das chuvas, entre Junho e Outubro.

"Esses ovos, assim que tiverem a humidade necessária, transformar-se-ão em larvas e é sabido que as larvas comem tudo o que é verde. A Guiné-Bissau é uma enorme mancha verde, pelo que não só as produções da castanha de caju serão afectadas, como também as de arroz, mangueiros e hortaliças", alertou.

"Se não forem tomadas medidas rapidamente, se não começarmos a combater já a praga, a situação de catástrofe que já se vive piorará e haverá fome, uma vez que 70 por cento da população tem na agricultura o seu meio de subsistência", frisou Marcelino Martins.

Segundo aquele técnico do Ministério da Agricultura guineense, foi uma "sorte" os gafanhotos terem surgido na Guiné-Bissau em meados de Dezembro, uma vez que já estava no fim a colheita do arroz, pelo que as perdas foram "residuais".

No entanto, a produção de arroz, a principal dieta alimentar dos guineenses, será "com toda a certeza" afectada nos próximos anos, pelo que a Guiné-Bissau terá de importar muitas mais toneladas do que as habituais 40 a 50 mil a que é obrigada anualmente para cobrir o défice daquele cereal.

O problema acontecerá este ano e estender-se-á por 2006 e 2007, sobretudo devido às larvas que sairão dos ovos, disse, acrescentando para o receio de que a Guiné-Bissau possa tornar-se em mais um "país de destino" das migrações dos gafanhotos, que atingem, na idade adulta, cerca de 15 centímetros.

Marcelino Martins indicou ainda que a Guiné-Bissau, apesar de alertada para a situação em Agosto de 2004, "nunca se preparou devidamente" para a eventualidade de a praga atingir o país.

"Estávamos a pensar que os gafanhotos, que têm o seu habitat natural em solos áridos e secos, como os do deserto, nunca atingissem a Guiné-Bissau. No entanto, a dimensão da praga, nunca vista no país, levou já técnicos da FAO a admitir que os gafanhotos podem mudar os hábitos alimentares e instalar-se definitivamente na Guiné-Bissau", alertou.

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