Prémio António Champalimaud distingue descobertas sobre relação entre cérebro e olhos

Os cientistas Christine Holt, Carol Mason, John Flanagan e Carla Shatz são os vencedores daquele que é o maior prémio do mundo na área da visão, no valor de um milhão de euros. O Prémio António Champalimaud 2016 escolheu trabalhos de investigação essenciais para a compreensão da relação entre aquilo que vemos e o que se passa no cérebro. São projetos que abrem a porta a terapias inovadoras de combate a problemas de visão com recurso a tratamentos neurológicos.

RTP /
Edwin Montilva - Reuters

O prémio reconhece um “assinalável avanço” protagonizado pelos quatro cientistas que vem possibilitar o tratamento no futuro de muitos distúrbios da visão através de terapias neurológicas. A fundação acredita que está em causa uma “verdadeira revolução nos padrões conhecidos da ciência e nas consequentes abordagens terapêuticas”.

São terapias que atingem diretamente o cérebro e a sua capacidade para receber com precisão as imagens que chegam da retina, que poderão ser a chave para desbloquear novos tipos de tratamento.

Os esforços individuais e coletivos de Christine Holt, Carol Mason, John Flanagan e Carla Shatz têm trazido mais informação sobre a ligação entre os dois órgãos responsáveis pela visão – olho e cérebro. Estes trabalhos têm feito avançar significativamente a compreensão sobre o sistema visual, nomeadamente sobre os mecanismos envolvidos no estabelecimento dos padrões de projeções retinianas.

Trocando por outras palavras: para conseguirmos ver, há sítios específicos no nosso cérebro que têm de receber informação de células dos nossos olhos, da nossa retina. As “imagens” ou projeções neuronais destas células têm de tomar decisões de navegação, no caminho para chegar ao seu destino. A visão depende dessas ligações sinápticas.

Quando estas projeções de retinas não são formadas corretamente, a visão criada no cérebro torna-se anormal e a capacidade de ver é muito prejudicada. É esta relação que os cientistas estabeleceram entre olhos e cérebro que abre a possibilidade de curar alguns problemas de visão através de tratamentos neurológicos.

Estão em causa terapias que podem trazer visão a quem não vê em resultado de conexões sinápticas mal estabelecidas.
Os cientistas premiados
A décima edição do Prémio António Champalimaud de Visão reconhece o contributo de quatro cientistas para fazer com que ver e reconhecer deixem de ser dois mecanismos diferentes, passando a ser um só, fruto do inter-relacionamento entre os dois.

Carla Shatz trabalha na Stanford University e quebrou barreiras para as mulheres na neurociência.

Na Harvard Medical School, foi a primeira mulher a receber um doutoramento em Neurobiologia e a primeira mulher a estar à frente do departamento dessa mesma área.

Dirige atualmente o Bio-X, um instituto interdisciplinar em Stanford para investigar grandes questões de Biologia. Em 2011 recebeu o conceituado Prémio Gerard de carreira e em 2016 foi laureada com o Prémio Kavli em neurociência.

John Flanagan está na Harvard Medical School, tendo-se formado em Bioquímica na Universidade de Oxford e realizado o Doutoramento no Laboratório de Biologia Molecular da Universidade de Cambridge.

Foi apontado como professor de Biologia Celular em 2001, na Harvard Medical School.

O ponto de interesse da sua investigação prende-se com a forma como são criados padrões espaciais, bem como o desenvolvimento e regeneração das conexões neuronais.

Christine Holt doutorou-se em Zoologia na década de 80 pelo King's College da Universidade de Londres.

Em 1997, foi para a Universidade de Cambridge e, em 2003, tornou-se professora no departamento de Fisiologia, Desenvolvimento e Neurociência. Em 2011, recebeu o The Remedios Caro Almela Prize na Investigação de Neurobiologia do Desenvolvimento.



Carol A. Mason está na Universidade de Columbia desde 1987 e é atualmente professora de Patologia e Biologia Cerebral, Neurociência e Oftalmologia.

A investigação atual tem como foco o desenvolvimento do sistema visual, tentando explicar a forma como o circuito entre o olho e o cérebro é estabelecido.

Foi presidente da Sociedade para a Neurociência entre 2013 e 2014.



Prémio Champalimaud de Visão
É o maior prémio do mundo na área da visão, com um valor que ascende a um milhão de euros. Foi lançado em 2006 e conta com o apoio do programa “2020 – o direito à Visão” da Organização Mundial de Saúde.

Nos anos par, como é o caso de 2016, o prémio é atribuído a pesquisas científicas de grande alcance na área da visão. Nos anos ímpar, reconhece o trabalho desenvolvido no terreno por instituições na prevenção e combate à cegueira e doenças da visão, sobretudo nos países em via de desenvolvimento.

No ano passado, o prémio foi para três instituições ativas na África Subsariana: Kilimanjaro Centre for Community Opththalmology, Seva Foundation e Seva Canada.

Em 2014, o prémio foi para sete cientistas: Napoleone Ferrara, Joan W. Miller, Evangelos S. Gragoudas, Patricia A. D’Amore, Anthony P. Adamis, George L. King e Lloyd Paul Aiello.

O júri do Prémio é constituído por cientistas internacionais e figuras públicas como Alfred Sommer, Paul Sieving, Jacques Delors, Amartya Sen, Carla Shatz, Joshua Sanes, Mark Bear, Gullapalli Rao, José Cunha-Vaz, António Guterres e Susumu Tonegawa.
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