Prémio equiparado ao Nobel distingue quatro matemáticos
A Medalha Fields, considerada como o "Nobel das Matemáticas", foi hoje atribuída a quatro cientistas de menos de 40 anos: um francês, um australiano e a dois russos, entre os quais o enigmático Grigori Perelman.
Os prémios foram entregues pelo rei Juan Carlos de Espanha, em Madrid, na sessão de abertura do 25/o Congresso Internacional das Matemáticas (CIM), mas Perelman, mais conhecido por ter resolvido o célebre enigma "Conjectura de Poincarré", primou pela ausência.
"Lamentamos anunciar que ele (Pelerman) se recusou a aceitar a medalha", afirmou o porta-voz do congresso, em que participam mais de 3.500 matemáticos de 126 países.
O matemático russo de 39 anos, que vive com a mãe em São Petersburgo, cortou praticamente todos os contactos com os seus pares depois de propor em 2003 uma solução para o complexo problema de topografia formulado em 1904 pelo francês Henri Poincarré, mas que é tão complicada que o mundo matemático ainda a está a analisar.
Foi para anunciar, entre outras coisas, que não iria receber o prémio a Madrid que Perelman fez recentemente à revista "The New Yorker" as suas primeiras declarações públicas em anos.
"(O prémio) é completamente irrelevante para mim. Qualquer pessoa entende que, se a demonstração estiver correcta, não é necessário nenhum outro reconhecimento", afirma numa entrevista publicada na edição de segunda-feira daquela revista norte-americana.
Mesmo assim, Perelman foi distinguido pela União Matemática Internacional pelas "suas contribuições para a geometria e o seu aprofundamento revolucionário na estrutura geométrica e analítica do fluxo de Ricci", segundo um comunicado que também enaltece os seus trabalhos sobre a Conjectura de Poincarré.
Em Junho deste ano, Zhu Xiping e Cao Huaidong, dois matemáticos chineses, publicaram os detalhes finais da prova da "Conjectura de Poincaré" no Asian Journal of Mathematics.
Landon Clay, um multimilionário norte-americano, ofereceu sete prémios de um milhão de dólares para quem resolver o que ele apelidou dos "sete enigmas do milénio".
Os sete problemas matemáticos, entre os quais se inclui a Conjectura de Poincaré, estão entre os mais conhecidos e intrigantes do mundo da ciência.
Entre eles contam-se as conjecturas de "Birch e Swinerton- Dyer" e de Hodge, as equações de Navier-Stokes, a Hipótese de Riemann, a Teoria de Yang-Mills e a "P versus NP".
A Conjectura de Poincaré afirma que "qualquer variedade tridimensional fechada e com grupo fundamental trivial é homeomorfa a uma esfera tridimensional".
A Medalha Fields, cunhada em ouro e atribuída de quatro em quatro anos pela União Matemática Internacional desde 1936, distinguiu também o russo Andrei Okounkov, o francês Wendelin Werner e o australiano Terence Tao.
A medalha mostra a face do vencedor e no reverso o perfil de Arquimedes e o lema "Transire Suum Pecturs Mundo que Potir" (Transcender o espírito e dominar o mundo). Mas apesar do seu alto valor, a dotação monetária que a acompanha é de 9.500 dólares (7.400 euros), relativamente escassa quando comparada à dos Prémios Nobel (cerca de um milhão de euros).
Paralelamente, foram entregues outras duas medalhas: o Prémio Nevanlinna, para trabalhos ligados à Sociedade de Informação, ao norte- americano Jon Kleinberg, e o Prémio Gauss, atribuído pela primeira vez e consagrado a aplicações da matemática, ao japonês Kiyoshi Ito.
Wendelin, 38 anos, de origem alemã e professor na Universidade de Paris Sul Orsay, foi premiado pelas suas "contribuições para o desenvolvimento da evolução estatística de Loewner, a geometria do movimento browniano a duas dimensões e a teoria conforme dos campos".
O australiano Terence Tão, 31 anos, professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles, foi medalhado pelas suas "contribuições para as equações em derivadas parciais (Ó), à análise harmónica e à teoria dos números aditivos".
O russo Okoundov, 37 anos, que ensina matemática na Universidade de Princeton (EUA), foi distinguido pelos seus trabalhos sobre "a interacção entre a teoria das probabilidades, a teoria da representação e a geometria algébrica".
O Prémio Nevanlinna foi atribuído ao norte-americano Jon Kleinberg, 35 anos, professor na Universidade de Cornell (EUA), pelos seus trabalhos na Internet.
Finalmente, o japonês Kiyoshi Ito, 90 anos, o laureado com mais idade, recebeu o Prémio Gauss pelos seus contributos para os sistemas de modelização de eventos aleatórios.
O próximo CIM decorrerá em 2010 em Hyderabad, na Índia.