Presidente do Quirguistão diz que violência pode ter provocado dois mil mortos
O número de mortos da violência étnica no Quirguistão pode ascender aos dois mil. Quem o diz é a própria presidente interina do país, Roza Otunbayeva, que hoje visitou pela primeira vez as zonas onde se deram os incidentes. Os confrontos, que opõem elementos da maioria quirguize aos habitantes da minoria uzbeque, são os mais graves desde há décadas nesta antiga Républica Soviética do centro da Ásia.
Falando na principal praça da cidade, Roza Otunbayeva apelou à boa vontade entre os grupos étnicos e prometeu a ajuda do Governo central.
"Vim aqui para ver, para falar com as pessoas e ouvir, em primeira-mão, o que aconteceu aqui. Faremos tudo o que for possível para reconstruir esta cidade", disse.
Apesar de a violência ter tido uma acalmia, a situação no Sul do país continua muito explosiva. Rosa Otunbayeva rejeita as críticas à actuação do Governo durante a crise.
"Parem de dizer que não estamos a trabalhar", disse a Presidente quirguize citada pela agência France Presse "as nossas forças dizem que estão a dar conta da situação".
O Governo do Quirguistão tinha anteriormente pedido à Rússia para que enviasse tropas a fim de ajudar a manter a paz, mas Moscovo recusou o pedido, oferecendo, em vez disso, assistência técnica para localizar os responsáveis pela violência.Vítimas mortais multiplicadas por dez
Relativamente ao número de 191 mortos apontado pelo seu próprio ministério da Saúde, Roza Otunbayeva mostrou-se pessimista:"Eu multiplicaria por dez os dados oficiais sobre o número de pessoas mortas", disse a líder do Governo interino. Segundo o porta-voz da Presidente, o número de mortos apontado até agora não tem em conta as vitimas que sepultadas antes do anoitecer, no próprio dia da morte, de acordo com os preceitos da religião islâmica.
A estimativa de dois mil mortos adiantada pela líder do Governo interino do Quirguistão excede em muito os números que até agora tinham sido avançados pelas agências internacionais.
Até agora a agência das Nações Unidas para os refugiados (UNHCR) estimava que tivessem morrido cerca de 180 pessoas e 1900 ficado feridas.
400.000 refugiados em situação precária
Em relação ao número de refugiados parece existir consenso. Estima-se que cerca de 400.000 pessoas tenham sido obrigadas a fugir. Na sua maioria trata-se de uzbeques, dos quais uma parte teve de escapar para o vizinho Uzbequistão.
Ao visitar um campo de refugiados no Uzebequistão, a cinco quilómetros da fronteira com o Quirguistão, o secretário de estado adjunto dos Estados Unidos, Robert Blake, apelou a uma investigação sobre as causas da violência e disse que está a trabalhar para garantir o regresso a casa, em segurança, dos deslocados.
Blake, que se encontra acompanhado de uma dezena de guarda-costas, parece estar a conduzir, ele próprio, uma espécie de inquérito, tendo perguntado aos refugiados se consideram que a campanha de violência foi organizada, como afirmam as autoridades quirguizes e as Nações Unidas.
O Governo de Bisqueque acusa apoiantes do ex-Presidente Kurmanbek Bakiyev, deposto em Abril durante uma revolta sangrenta, de terem iniciado a onda de confrontos. A ONU concorda que a violência parece ter sido organizada, mas abstém-se de atribuir responsabilidades.
Apesar de algum auxílio humanitário já estar a chegar à região, a Cruz Vermelha Internacional descreveu a situação como "uma crise imensa", com dezenas de milhares de refugiados ainda sem abrigo e a carecerem das mais básicas necessidades.
A situação agrava-se ainda mais, pois nos campos de refugiados estabelecidos no Uzebequistão tem havido notícia de graves espancamentos e violações.
Duas comunidades muito distintas
Quirguizes e Uzbeques são duas comunidades com muito pouco em comum. Os Uzbeques são principalmente agricultores sedentários e comerciantes que falam uma língua aparentada ao Turco. A comunidade é tradicionalmente mais próspera do que a de étnia quirguize, proveniente de uma tradição nómada.
Antes da actual crise viviam no Quirguistão cerca de um milhão de uzbeques, que tinham poucos representantes a nível do poder e vinham tentando recentemente ganhar mais influência política e cultural.
800.000 elementos desta étnia viviam no Sul do país, onde, nas cidades de Osh e Jalalabad, rivalizavam em número com os quirguizes. Ambos os grupos são predominantemente muçulmanos sunitas.