Presumível autor dos atentados de 11 Março diz-se vítima de vingança

Jamal Zougam, acusado de autoria material dos atentados de 11 de Março de 2004 em Madrid, afirmou hoje em tribunal ser vítima de uma vingança por se ter recusado a ser informador das autoridades espanholas.

Agência LUSA /

"Levaram-me a julgamento por um atentado com o qual nada tenho a ver. P ode ser por vingança. Ainda não sei porque estou neste julgamento", disse Zougam , no reinício do julgamento, que começou quinta-feira passada, em Madrid.

Zougam é acusado de ter colocado uma das bombas que provocaram 191 mort os e cerca de dois mil feridos e de ter fornecido os cartões dos telemóveis usad os para activar os engenhos explosivos, crimes pelos quais a acusação pede uma p ena de 38.654 anos de prisão.

O arguido, um marroquino, relatou como em duas ocasiões, em 2001, lhe f oi oferecida a possibilidade de se tornar informador da polícia e do Centro Naci onal de Inteligência (CNI) sobre os movimentos da comunidade muçulmana na capita l espanhola.

Segundo Zougam, numa das vezes um homem deixou-lhe um cartão para telef onar se mudasse de opinião.

"Esta pessoa, dois ou três dias depois da detenção [após os atentados d e 11 de Março] disse-me (...) `se tivesses colaborado connosco isto não te tinha acontecido`", explicou Zougam ao seu advogado.

Por isto, "entendi que era uma vingança, porque eu não tinha nada a ver com este atentado, nem com nenhum outro atentado", disse ainda, acrescentando q ue não fez estas declarações perante o juiz de instrução por medo de represálias .

Disse ainda que no dia da sua detenção, a 13 de Março de 2004, lhe diss eram que tinham detido a sua irmã e mãe - o que não aconteceu - e que "iam violá -las" e que os polícias lhe bateram.

Tal como os três arguidos que foram ouvidos antes, Zougam negou qualque r relação com atentados terroristas ou grupos armados islamitas e condenou a vio lência do 11 de Março.

"Condeno firmemente este atentado. Não estou de acordo nem com este nem com nenhum atentado que acabe com a vida de pessoas inocentes por motivos relig iosos, políticos ou outros", declarou.

Nos dois primeiros dias do julgamento foram ouvidos os três presumíveis cérebros dos atentados, "Mohamed, o Egípcio", Youssef Belhadj, "o Afegão", e Ha ssan el-Haski, designado "Abu Hamza".

Todos recusaram responder a perguntas que não fossem do próprio advogad o.

Segundo a acusação, "Abu Hamza" terá começado a planear em 2003, com "M ohamed, o Egípcio" e "o Afegão", uma importante acção para atingir a Espanha, pe la sua participação na intervenção ocidental conduzida pelos Estados Unidos no I raque.

O quarto presumível instigador dos atentados reivindicados em nome da A l-Qaida, Sarhane bem Abdelmajid Fakhet, "o Tunisino", fez-se explodir com seis o utros alegados participantes nos atentados, durante o cerco ao seu apartamento p ela polícia, em Léganès, perto de Madrid, a 03 de Abril de 2004.

Fonte judicial citada pela AFP disse entretanto que o tribunal pediu a desclassificação de um documento do CNI no qual um acusado espanhol estabelecia uma ligação entre um presumível autor do atentado e dois membros da organização terrorista basca ETA.

José Emílio Suarez Trashorras, acusado de ter sido o principal forneced or dos explosivos utilizados nos atentados de Madrid, terá assegurado a um eleme nto do CNI que um dos autores do massacre, Jamal Ahmidan, conhecia os dois membr os da ETA que foram detidos dias antes de 11 de Março, quando transportavam 500 quilogramas de explosivos para a capital espanhola.

A fonte citada pela AFP acrescentou que compete ao governo pronunciar-s e sobre a desclassificação dos documentos dos serviços secretos.

A procuradoria espanhola pede penas totais de mais de 270 mil anos de c adeia para os 29 arguidos pelos 191 assassínios, quase duas mil tentativas de as sassínio, crimes de terrorismo e outros delitos.

Além dos 29 suspeitos, o julgamento envolve 650 testemunhas (muitas sob protecção policial), 49 advogados de defesa e 23 de acusação, 98 peritos e três juízes, num processo com dezenas de milhares de páginas.

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