Prioridade da UNITA é transparência das contas públicas
O presidente da UNITA definiu hoje como uma das suas prioridades a transparência das contas públicas angolanas a bem do desenvolvimento do país, caso vença as eleições, ainda sem data marcada, mas previstas para 2006.
Em entrevista à Agência Lusa em Lisboa, onde hoje termina uma visita de cinco dias, Isaías Samakuva afirmou que é necessário mudar a imagem de Angola como país ligado à corrupção, defendendo que a transparência das contas públicas, nomeadamente das receitas do petróleo, é essencial para o desenvolvimento social.
"Não se sabe ao certo quais as receitas do país nem para onde vai esse dinheiro, o que impede que se peçam responsabilidades", frisou o presidente da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA).
Para Isaías Samakuva, a transparência permitiria também mudar a imagem do país junto da comunidade internacional e conquistar a confiança dos investidores.
Questionado pela Lusa sobre se considera ter condições para vencer as eleições presidenciais, o líder da UNITA admitiu que será "difícil" mas assegurou que o partido está na corrida "para vencer".
Sobre se o partido está enfraquecido devido às divergências internas e se esse factor poderá influenciar os resultados eleitorais, Samakuva lamentou que o "debate de ideias" num partido democrático seja encarado como uma divisão.
"Há quem queira passar a ideia de que a UNITA está dividida e enfraquecida e que não está e condições de governar o país", disse, sem acusar ninguém em particular.
Samakuva reiterou, no entanto, que é "natural" haver ideias e propostas diferentes num "partido democrático" como a UNITA e que estas sejam debatidas, prevalecendo as que são "apoiadas pela maioria", mas lembrou que em democracia "também há regras e sanções para quem infringe essas regras".
Entre alguns críticos da direcção de Samakuva estão o ex-líder da Comissão política, Paulo Lukamba "Gato", que foi coordenador da Comissão de Gestão da UNITA após a morte do líder histórico do partido, Jonas Savimbi, e o ex-líder da bancada parlamentar Abel Chivukuvuku, que o acompanham nesta viagem a Portugal.
Lukamba "Gato" concorreu à presidência do partido contra Samakuva e Chivukuvuku foi suspenso do partido por 30 dias por declarações públicas acerca de falta de democracia interna, mas acabou por ser "perdoado" pelo líder da UNITA, bem como Jorge Valentim, ex- ministro do Turismo, suspenso por um ano.
Instado a comentar a atitude do presidente angolano, José Eduardo dos Santos, de ter remetido quinta-feira a lei eleitoral para o Tribunal Supremo por dúvidas quanto à sua constitucionalidade, Samakuva afirma que a "leitura política" que faz é que "a intenção foi atrasar as eleições".
"Já há um ano que alertamos para a necessidade de que o processo seja claro, mas também célere, e o tempo de que dispomos é cada vez menos", disse Samakuva, alertando para que ainda falta fazer o recenseamento e definir a composição da Comissão Nacional de Eleições.
Sobre a viabilidade do recenseamento eleitoral quando muitos refugiados ainda não regressaram ao país ou estão ainda a ser instalados, o presidente da UNITA referiu que é preferível "não privar ninguém do seu direito a votar" ou que algumas regiões fiquem beneficiadas, mas defendeu que o processo eleitoral "não pode ser adiado indefinidamente".
Neste sentido e questionado sobre se acredita que as eleições ainda podem realizar-se em 2006, Samakuva disse ter a esperança que sim porque essa tem sido a luta da UNITA.
Quanto à questão de Cabinda, onde ainda persiste um conflito entre o governo e os independentistas da Frente de Libertação do Enclave de Cabinda, Samakuva defende que é necessário "ouvir o povo" território para resolver a questão.
"Não se pode permitir que haja qualquer conflito em Angola por causa do petróleo, mas o povo de Cabinda tem o direito de perceber por que motivo vive em condições de pobreza quando o seu território fornece mais de 80 por cento do petróleo exportado por Angola", defendeu.
Durante a sua estada em Portugal, Samakuva manteve encontros com o Presidente da República, Jorge Sampaio, o presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, o secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, João Gomes Cravinho, representantes de partidos políticos (PSD, CDS-PP e Nova Democracia) e empresários portugueses.
O presidente da UNITA explicou que o objectivo desta visita foi "explicar às autoridades portuguesas a situação em Angola" e "pedir apoios para a reconstrução e desenvolvimento do país", enquanto presidente de um partido com a importância da UNITA, "com aspirações de governação".
Samakuva defende que o apoio de Portugal deve passar pela parceria e não pela ajuda, dando como exemplo a parceria entre empresas portuguesas e angolanas.
Em relação ao resultado destes encontros, Samakuva diz que foi "positivo", nomeadamente com Jorge Sampaio, que manifestou o seu apoio ao "processo de democratização e desenvolvimento de Angola".
A visita a Portugal foi a primeira etapa de um périplo europeu, que leva ainda Samakuva à França e à Alemanha.