Privados dominam cada vez mais o espaço. Pesos pesados faltam a cimeira mundial do setor

Privados dominam cada vez mais o espaço. Pesos pesados faltam a cimeira mundial do setor

No dia em que se discute o futuro da exploração espacial, em Paris, a OCDE mostra que há uma presença crescente de empresas privadas no setor: representaram quase 90% dos satélites lançados no ano passado. Apesar da importância, SpaceX e Blue Origin estão fora da conferência. Portugal não fica à margem do tema.

Gonçalo Costa Martins - RTP Antena 1 / Adicionar como fonte informativa
GETTY IMAGES VIA AFP

Na corrida pelo céu - mais além do que o céu - os operadores privados há muito que tomaram a dianteira, mas essa presença é cada vez mais sólida. Se em 2010 representavam apenas 23% dos satélites lançados, o peso dos privados saltou para 88% no ano passado.

Para a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), no relatório que divulga esta quarta-feira sobre a economia especial, a evolução dos números marca uma "mudança significativa de um ambiente espacial historicamente dominado por governos e organismos públicos para um ambiente cada vez mais moldado por atores comerciais". Só o setor das telecomunicações representa 82%.

De acordo com os números reunidos por esta organização, consultados pela RTP Antena 1, a percentagem de objetos lançados por atores comerciais só descolou a partir da década de 90, ultrapassando a barreira dos 20% entre todos os objetos lançados. Nos anos 2010-2019 deu-se a viragem: os objetivos civis ou de defesa deixaram de dominar e as missões comerciais, nesse intervalo, passaram a representar perto de 50% de todos os objetos lançados. Os números mais recentes mostram um domínio quase total, de 88%.

"Os operadores comerciais controlam, cada vez mais, ativos que são fundamentais para a conectividade, as infraestruturas orbitais, os fluxos de dados e a prestação de serviços", descreve a OCDE. Ao mesmo tempo, "os organismos públicos continuam, muitas vezes, a ser clientes, reguladores e parceiros essenciais nas missões". 

Perante esta realidade, a organização desafia os governos a criarem um setor mais competitivo à medida do crescimento registado no setor. 
Estados Unidos dominam, mas gigantes norte-americanas faltam à cimeira

Para esta quarta e quinta-feira, foram convidados 120 países, com exceção da Rússia, do Irão e da Coreia do Norte. "O objetivo da cimeira é salvaguardar e consolidar a posição da Europa, que se encontra numa situação delicada entre os Estados Unidos e a China, que são agora os dois principais polos", afirmou à televisão francesa TF1 o astronauta Thomas Pesquet, embaixador da cimeira, sublinhando que "o espaço é uma área em que todos somos obrigados a trabalhar juntos".

A discussão que acontece em França não irá contar gigantes norte-americanos, entre elas a SpaceX, de Elon Musk, e a Blue Origin, de Jeff Bezos. Chegou a estar prevista a sua presença, mas a administração de Donald Trump terá pressionado os empresários a não participar na cimeira convocada pelo presidente francês. Segundo três fontes não identificadas disseram ao órgão de imprensa norte-americano Politico, houve uma chamada telefónica entre um gabinete da Casa Branca e várias empresas espaciais em que "pareceu que o governo [americano] estava a desencorajar a participação no evento".

Os Estados Unidos têm reforçado o seu domínio no setor, depois de existir um equilíbrio com a China e ficarem atrás da Rússia, por exemplo, no total de lançamentos registados em 2010. A posição dominadora dos EUA descolou em 2025, ano em que foram responsáveis por 55% de todos os lançamentos e 87% dos objetos lançados. 

A posição dos EUA "reflete, em grande parte, a elevada cadência de lançamentos da SpaceX, que realizou a maioria das missões norte-americana", assinala a OCDE no relatório.

A China concentra 28% dos lançamentos e 8,4% dos objetos lançados. O documento salienta também outros intervenientes ativos nos lançamentos como a Rússia, a Europa através dos programas Ariane e Vega, o Japão, a Índia, o Irão e a Nova Zelândia. Já Israel, a Coreia do Sul e a Coreia do Norte também fizeram lançamentos ou tentativas de lançamento orbital durante o período de 2024-2025.
E Portugal?

Existem cerca de 15 mil satélites ativos e as receitas globais da economia espacial foram estimadas, no ano passado, em 550-600 mil milhões de dólares em 2025. Portugal não fica à margem neste tema, embora longe das superpotências do setor. 

O relatório da OCDE faz breves menções ao país entre grupos de nações que estão a desenvolver iniciativas no ecossistema espacial. "Vários países europeus, incluindo Portugal, a Polónia, os Países Baixos, a Finlândia, a Suécia e a Alemanha, anunciaram planos para
adquirir constelações de satélites comerciais
com radar de abertura sintética para satisfazer as necessidades soberanas de informações, vigilância e reconhecimento", destaca. 

O documento menciona também que Portugal, juntamente com Austrália, Canadá, Alemanha, Noruega, Suécia e Reino Unido, "estão a desenvolver novos projetos de bases de lançamento comerciais ou soberanas, com diferentes níveis de maturidade, mas, em meados de 2026, muitos deles tinham realizado apenas atividades suborbitais ou tentativas orbitais mal sucedidas". Portugal conta também, sublinha a OCDE, com uma estratégia de defesa espacial.

O país tem, por exemplo, um porto espacial na ilha de Santa Maria, nos Açores, que realizou recentemente o primeiro lançamento comercial e que tem vindo a receber novas iniciativas
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