Processo longo cheio de momentos simbólicos e de dedos `roxos`

As urnas para as eleições legislativas de sábado em Timor-Leste só estão abertas oito horas, mas o processo de votação e de escrutínio prolonga-se durante praticamente todo o fim de semana em todo o país.

Lusa /
Lirio Da Fonseca - Reuters

Às 06h00, uma hora antes da abertura das 1.160 estações de voto (divididas por 885 centros de votação) começa o processo de identificação e verificação de responsáveis eleitorais, observadores e fiscais.

O material sensível, incluindo urnas, boletins de voto, cabine de voto e tinta indelével que marca o indicador direito de cada eleitor, é depois comprovado. Um dos passos mais importantes é a verificação de que as urnas estão vazias antes de serem seladas com uma cinta com identificação numérica.

Exatamente às 07h00, o presidente do centro de votação declara aberto o processo de votação, com os primeiros a votarem a ser os próprios oficiais eleitorais. As urnas estarão abertas até às 15h00 e podem votar os eleitores que já estiverem na fila a essa hora.

Em Timor-Leste, em muitos locais, os eleitores chegam cedo e por isso o "oficial controlador de fila" começa a organizar os votantes por ordem de chegada, comprovando se têm a documentação necessária, nomeadamente o cartão de eleitor.

Cada votante passa depois para os "oficiais verificadores de identidade" que verificam a inscrição do portador do cartão de eleitor nos cadernos eleitorais. Em Timor-Leste pode obter-se o cartão de eleitor aos 16 anos, mas só se vota com mais de 17.

O passo seguinte é da responsabilidade do "oficial controlador do boletim de voto" que a cada eleitor entrega um boletim de voto (cada livro impresso na Gráfica Nacional tem 50 boletins de voto), assina e carimba o documento com a frase "eleição parlamentar 2018".

O eleitor é informado de que pode marcar a escolha numa das oito caixas correspondentes a cada uma das forças políticas concorrentes com um prego ou com uma caneta.

Herança do período de ocupação indonésia e uma 'ajuda' aos muitos que em Timor-Leste ainda não sabem ler nem escrever, o prego, de dez centímetros no mínimo, continua a ser um usado em todas as estações de voto.

As canetas podiam fazer o mesmo efeito, mas muitos sentiam-se inseguros com a caneta pelo que o prego, em algumas eleições, chegou mesmo a ser o único instrumento para votar.

Depois começou a ocorrer o inverso, com os letrados a perguntarem porque tinham que continuar a usar o prego, motivo pelo qual hoje, em cada cabina de voto, há um prego e uma caneta.

O "controlador de urna" verifica depois que que a cabina de voto está segura e em condições, sem a presença de de telemóveis e câmaras. Finalmente, o momento mais simbólico, em que o eleitor coloca o voto na urna e imediatamente a seguir 'dá' o indicador direito ao "controlador da tinta indelével", que o insere no pequeno frasco com a tinta roxa.

A tinta, uma garantia adicional de que ninguém pode votar duas vezes, tornou-se o símbolo do voto em Timor-Leste, marcando muitas das fotografias que jornalistas e as redes sociais vão publicar da jornada.

No referendo de 1999 em que os timorenses escolheram a independência, para evitar represálias das milícias, a tinta era transparente e só se conseguia ver com luz preta.

Agora é o tradicional roxo que, a 12 de maio, os timorenses vão mostrar todo o dia, na quarta ida às urnas em 18 meses.

Segue-se o longo processo de contagem. Em 2017, a contagem só foi concluída - pelo menos a primeira fase - 40 horas depois do fecho das urnas.

Ainda nos centros de votação, os votos expressos são separados em quatro grupos - nulos, brancos, válidos e alvo de reclamação - e, posteriormente atribuídos às oito candidaturas num processo que é acompanhado por observadores e fiscais partidários.

Depois de contados nos centros de votação, os votos são verificados a nível municipal e, posteriormente, a nível nacional.

As primeiras fases de contagem são da responsabilidade do Secretariado Técnico de Assistência Eleitoral (STAE) e a final da Comissão Nacional de Eleições (CNE).

Os resultados finais são certificados pelo Tribunal de Recurso.

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