Produção de cacau e café uniu Guiné Equatorial e Portugal durante séculos

Malabo, 27 jul (Lusa) - A produção de cacau e de café uniu durante séculos a Guiné Equatorial e Portugal, pelo que a entrada na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) é vista com naturalidade, até por quem não concorda com o regime.

Lusa /

"Sempre houve muitos portugueses cá", diz Weja Chicampo, dirigente do movimento de autodeterminação da ilha de Bioko e líder da etnia bubi, que se queixa de ser ostracizada pelos fang, ligados ao regime, em particular o clã do Presidente Teodoro Obiang, os Esangui.

"Nós gostamos muito de Portugal porque eles trataram-nos sempre bem", afirma Juan, taxista em Malabo e neto de um português que trabalhava nas "fincas" de cacau de Sanpaca.

"A minha avó era empregada e teve a minha mãe. Ele nunca casou, mas nunca faltou com dinheiro", diz Juan Espírito Santo ("escrito em português", como gosta de dizer), que só fala espanhol, mas tem pena que "Portugal tivesse abandonado os guineanos".

No dia 23, a CPLP aprovou a entrada da Guiné Equatorial na organização, uma reivindicação antiga do governo, liderado por Teodoro Obiang e contestada por várias organizações da sociedade civil, que alegam o facto de poucos falarem português e acusam o regime de várias violações de Direitos Humanos.

A ilha de Bioko, antiga Fernão Pó, onde está a capital da Guiné Equatorial (Malabo) passou para as mãos espanholas em 1778, mas a presença dos portugueses no país não acabou.

"Há uma relação antiga com Portugal, que não era de colonização, mas económica e de respeito da população local", diz à agência Lusa Weja Chicampo.

"Até antes da independência [no final dos anos 1960] houve sempre muitos portugueses no país", principalmente à frente das quintas que produziam cacau e café, as âncoras da economia da Guiné Equatorial antes da descoberta do petróleo, na década de 1990.

"Muitas das quintas ["fincas", semelhantes às roças de São Tomé e Príncipe] eram de empresários portugueses" e "nós não distinguíamos os espanhóis dos portugueses", explica, dando o nome de vários apelidos portugueses que permanecem: os "Pintassilgos", "Teixeiras", "Gonçalves" ou "Antunes".

Depois da independência, com a expulsão dos espanhóis, também saíram os portugueses que viviam no país. Até porque as "quintas de cacau e café, que funcionavam em articulação com as roças de São Tomé, ficaram ao abandono", explica o dirigente dos bubis.

"Até se dizia que o português era espanhol mal falado", recorda Weja que, no entanto, discorda do modo como foi estabelecida a adesão.

"Não é possível negociar com um regime como este. Não é possível confiar e esperar que ele mude", afirma o líder dos bubis, a etnia dominante da ilha de Bioko, que se queixa de ser perseguida pela maioria fang (com base no continente) e de ser afastada dos circuitos de poder.

Além de Portugal, há uma forte relação com São Tomé e Príncipe, principalmente a ilha de Ano Bom, uma das províncias da Guiné Equatorial e cujo idioma serviu de base para a candidatura do país à CPLP, devido ao seu crioulo.

"Nada temos contra Portugal, antes pelo contrário, mas falamos espanhol e a CPLP não faz sentido, pelo menos neste momento", diz um dirigente da União Popular, um dos partidos da oposição, cuja direção foi ilegalizada pelo regime que governa o país desde 1979.

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