Produzir células estaminais sem destruir embriões anula argumentos éticos
A produção de células estaminais embrionárias sem a destruição do embrião deita por terra argumentos dos críticos que acusam os cientistas de destruir vidas.
De acordo com o presidente da Sociedade Portuguesa de Células Estaminais e Terapia Celular (SPCE-TC), Rui Reis, o método anunciado hoje na edição electrónica da revista Nature era procurado há vários anos por diversos especialistas.
Depois de colher uma única célula de embriões humanos com oito a dez células, cientistas da empresa norte-americana Advanced Cell Technology Inc (ACT) de Massachusetts, conseguiram produzir duas linhagens de células estaminais embrionárias sem provocar a morte dos embriões utilizados.
O método, que não implica a destruição de embriões, poderá permitir escapar às objecções éticas levantadas nomeadamente pelo governo norte-americano para justificar o corte de subsídios federais às investigações sobre células estaminais embrionárias humanas.
Para Rui Reis, a técnica deita por terra os argumentos étnicos que criticam a investigação em embriões excedentários, porque esta conduz à sua destruição.
O grande feito da investigação foi "a manutenção da integridade do embrião", ao qual foi retirada a célula que deu origem às linhagens de células estaminais embrionárias.
Segundo o presidente da SPCE-TC, com este método não há destruição do embrião e são obtidas células estaminais que podem ser uma resposta em terapias para doenças como a diabetes, Parkinson, ou doença de Alzheimer.
O cientista chamou a atenção para a necessidade da descoberta dever ser reproduzida em outros laboratórios, pois é fundamental que a técnica se demonstre aplicável.
Contudo, a descoberta atribuída à Advanced Cell Technology (ACT) implica que a mesma está patenteada e, por isso, só esta poderá usá-la em procedimentos clínicos.
Segundo a edição electrónica da Nature, cientistas da Advanced Cell Technology Inc (ACT) de Massachusetts, que no ano passado conseguiram produzir cinco linhagens de células estaminais a partir de embriões de ratos, adaptaram a técnica ao homem.
Os investigadores utilizaram 16 embriões supranumerários resultantes de fecundação "in vitro" (FIV) para retirar de cada um deles uma única célula com uma micropipeta, num método semelhante ao seguido no diagnóstico pré-implantatório (DPI).
O DPI é usado em caso de risco de doença genética hereditária para seleccionar, depois de uma FIV, embriões ilesos, antes de os implantar no útero materno.
Deixando uma única célula colhida para o DPI multiplicar-se durante uma noite, "as células produzidas poderão ser utilizadas tanto para testes genéticos como para a produção de linhagens de células estaminais", sem que isso afecte o futuro do embrião, explicou à Nature a equipa de investigadores, chefiada por Robert Lanza.
Ainda não diferenciadas (especializadas), as células estaminais embrionárias são capazes de evoluir para substituir qualquer célula humana, o que é fonte de enormes esperanças em futuras terapias (como enxertos de células cardíacas depois de um enfarte, por exemplo).