Programa nuclear brasileiro ameaçado por falta de verbas

O programa nuclear brasileiro encontra-se ameaçado por falta de investimento do governo federal, alertou o director do Centro Tecnológico da Marinha (CTM) do Brasil, contra-almirante Carlos Passos Bezerril em entrevista hoje publicada.

Agência LUSA /

"Se a canalização de recursos não for alterada num curto espaço de tempo, corremos o risco de perder todo o esforço despendido ao longo de mais de 20 anos de desenvolvimento e pesquisa", afirmou o militar em entrevista ao jornal "Correio Braziliense".

Segundo o contra-almirante, o programa nuclear brasileiro necessita anualmente de 130 milhões de reais (49,6 milhões de euros) durante oito anos.

"O programa encontra-se num estado vegetativo (...), e a parcela destinada a investimentos é pequena e pode, se perdurar, prejudicar o programa de modo irreversível", assinalou, sem divulgar, contudo, o montante de recursos destinados pelo governo.

O director do CTM lembrou também que, num mundo ávido por energia, ressurge o interesse pela utilização da energia nuclear para fins pacíficos e garantiu que o Brasil tem uma "tecnologia muito boa".

De acordo com o contra-almirante, a centrifugadora para o enriquecimento de urânio que está a ser instalada nas Indústrias Nucleares do Brasil (INB) é a mais avançada já homologada para a produção industrial.

A máquina já deu origem a outras gerações de centrifugadoras, uma delas com rendimento 40 por cento maior, que deverá ser instalada na central nuclear de Resende, no Rio de Janeiro, em 2008, e outra, ainda mais avançada, que estará pronta a partir de 2010.

Em 2004, o Brasil foi centro de uma polémica internacional sobre as suas pretensões no âmbito nuclear.

O Departamento de Estado dos Estados Unidos exigiu ao Brasil a assinatura do Protocolo Adicional de Inspecções com a Agência Internacional de Energia Atómica (AEIA) da ONU, que permitiria inspecções mais profundas e sem aviso prévio nas suas instalações nucleares.

As autoridades brasileiras escusavam-se a mostrar as centrifugadoras da central nuclear de Resende, a pretexto de salvaguardarem a tecnologia nacional da espionagem industrial.

O Brasil sempre garantiu que as suas operações de enriquecimento de urânio são inteiramente para usos pacíficos.

Em Novembro de 2004, a AIEA aprovou o plano de inspecção da fábrica de enriquecimento de urânio de Resende e autorizou o funcionamento da central.

O actual governo brasileiro já afirmou que tem como meta o ano de 2010 para que o Brasil produza todo o urânio enriquecido de que o país necessita para fins pacíficos.

A pretensão parece não condizer, no entanto, com o possível colapso do programa nuclear brasileiro para o qual a Marinha está a alertar.

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