Projeto na Guiné-Bissau anda em busca dos últimos peixes-serra do planeta

Bissau, 25 nov (Lusa) - O peixe-serra está em todas as notas de francos CFA da Guiné-Bissau e África Ocidental, mas é um animal quase extinto que vai ser alvo de uma vigilância especial, adiantou à Lusa um dos biólogos envolvidos no projeto.

Lusa /

O Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas (IBAP) do país, com o apoio da Noé Conservation, vai lançar uma rede de alerta rápido sobre avistamentos de peixe-serra.

É um animal semelhante a um tubarão, mas com um longo nariz, em forma de serra.

"Quando uma espécie chega a este ponto de quase extinção, todos os registos são importantes", explicou à agência Lusa o biólogo Miguel Lecoq, investigador português que trabalha numa ONG internacional no âmbito de um projeto conjunto com o IBAP.

Em dezembro vão ser ativados números de contacto nacional (5124946 ou 9251817) e serão distribuídos folhetos informativos nas zonas costeiras, para que a população saiba como identificar e o que fazer para ajudar a preservar a espécie, referiu.

Os peixes-serra eram abundantes na costa Atlântica, de Portugal a Angola, mas desde o início da década de 1970 passaram a ser pescados massivamente.

Tal como os tubarões, foram muito cobiçados pelo mercado asiático que procura as barbatanas para a culinária: a procura disparou, os preços subiram e há registos de pescadores que nos anos 80 chegavam a carregar para terra 350 quilos "só em barbatanas de peixe-serra", refere Miguel Lecoq.

Como resultado, as duas espécies de peixe-serra do Atlântico Oriental estão praticamente extintas.

O último avistamento aconteceu nas ilhas dos Bijagós, na Guiné-Bissau, em 2012.

"Existem ainda duas outras populações de peixe-serra, uma na Flórida (EUA) e outra na Austrália, esta última pertencente a uma espécie diferente", sublinha o biólogo.

Este cenário fez com que um conjunto de financiadores (sobretudo a fundação internacional para a natureza MAVA e a União Europeia) decidissem avançar com "um último esforço para o preservar".

Miguel Lecoq coordena um projeto de apoio ao IBAP para proteger as cinco ilhas do arquipélago dos Bijagós que constituem o Parque Nacional das Ilhas de Orango e que inclui a recolha de informação sobre relatos, avistamentos ou outros contactos com o peixe-serra, "para trabalhar no sentido da conservação da espécie".

O projeto construiu uma base de dados com mais de 11 mil registos de capturas de raias e tubarões relativos aos últimos cinco anos e a criação da rede de alerta rápido sobre avistamentos é mais uma peça para completar a difícil estratégia que ainda pode vir a salvar o peixe-serra.

As dificuldades estão inerentes às próprias características do animal: os adultos podem atingir sete a oito metros de comprimento e com uma longa serra com dentes destacados, os peixes-serra são facilmente agarrados em qualquer rede de pesca.

Além disso, têm uma maturidade sexual tardia e uma baixa taxa de fecundidade: estas características tornam muito lenta a recuperação das suas populações.

Tudo se aproveita no peixe-serra, que tradicionalmente, tinha um valor mitológico de prosperidade, fecundidade e poder.

A serra, por exemplo, faz parte do folclore ancestral do povo Bijagó (que habita nas ilhas) como parte de máscaras de diferentes cerimónias, pintadas e adornadas de maneira a conquistar uma imponência com grande impacto visual.

Hoje, as máscaras são construídas com madeira que imita a longa serra, mas as informações da espécie são preciosas para conhecer os seus hábitos, a sua dieta e os locais onde ainda sobrevive.

 

 

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