Prosperidade pós movimento de Tiananmen ofuscou sensação "única" de liberdade

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Na primavera de 1989, Zhang Lijia sentiu-se livre, pela primeira vez, quando liderava, em Nanjing, um protesto de operários; Yu Hua compreendeu o significado de "povo", cuja união, nas ruas de Pequim, abalou o regime chinês.

Trinta anos depois, o movimento pró-democracia da Praça Tiananmen é visto por uma geração de chineses como um período decisivo na formação da China atual.

"Descobri então que povo não era uma palavra vazia de significado", repetida até à exaustão pela propaganda do regime, lembrou, num ensaio, o escritor chinês Yu Hua, que tem duas obras publicadas em Portugal e milhões de livros vendidos em todo o mundo.

"Em Pequim, andava-se de metro ou autocarro sem pagar. As pessoas sorriam umas para as outras. Vendedores ambulantes ofereciam refrescos aos manifestantes; aposentados doavam parte das suas magras economias aos grevistas. Numa demonstração de apoio, os carteiristas abstinham-se de roubar", descreveu.

Em meados de abril, o luto pela morte de Hu Yaobang, defensor de uma maior liberalização na China, mas afastado da cúpula do Partido Comunista por "falta de firmeza face ao liberalismo burguês", tornou-se rapidamente num protesto político.

Entre os estudantes da Universidade de Pequim, que começaram por exigir a "reabilitação" de Hu e o reconhecimento do seu trabalho reformista, começou-se também a gritar "Abaixo a ditadura", "Viva a democracia e a ciência".

A contestação estudantil alastrou-se a toda a sociedade chinesa e, em meados de maio, o Governo decretou a lei marcial em Pequim.

Inspirada pelos acontecimentos na capital, que lhe chegavam via BCC, através de um rádio de ondas curtas, Zhang Lijia organizou um protesto com cerca de 300 operários na fábrica de produção de mísseis onde trabalhava, em Nanjing, na costa leste da China.

"Sob o olhar dos líderes da fábrica, os operários desfilaram, como se caminhassem para uma batalha. Na frente, erguendo uma bandeira vermelha, tive uma sensação de libertação nunca experimentada antes", descreveu, numa mensagem de correio eletrónico enviada à Lusa, a escritora, agora radicada em Londres.

O movimento da Praça Tiananmen foi esmagado na noite de 03 para 04 de junho de 1989, quando os tanques do exército foram enviados para pôr fim a sete semanas de protestos.

O número exato de pessoas mortas continua a ser segredo de Estado, mas as "Mães de Tiananmen", associação não-governamental constituída por mulheres que perderam os filhos naquela altura, já identificaram mais de 200.

"Nos dias seguintes, a televisão transmitia repetidamente imagens de estudantes a serem levados sob custódia. Longe de casa, num desconfortável quarto de hotel, vi os olhares desesperados nos seus rostos", escreveu Yu.

Um dia, subitamente, as imagens mudaram: "As figuras dos suspeitos foram substituídas por cenas de prosperidade em toda a pátria. O locutor passou de denunciar apaixonadamente os crimes dos estudantes para alegremente enaltecer o progresso da nossa nação", contou.

Sentindo-se derrotada, Zhang Lijia abandonou a China nos anos 1990.

"Quando voltei, alguns anos mais tarde, encontrei uma economia em expansão e, eventualmente, um espaço chamado privacidade que não existia antes: as pessoas podiam finalmente vestir-se ou namorar como quisessem", descreveu.

"Continuamos a viver numa jaula. Mas, para muitos, ela alargou-se tanto que quase não sentimos os seus limites. Nesse sentido, os protestos de 1989 não foram um fracasso total", ressalvou.

A China é hoje a segunda maior economia do mundo e principal potência comercial do planeta, tendo-se convertido num `player` capaz de disputar a liderança global com os Estados Unidos.

O contrato social selado entre o Partido Comunista e o povo chinês é claro: o partido mantém uma autoridade indisputada e os privilégios da elite dominante e, em troca, assegura o crescimento económico, melhoria dos padrões de vida e elevação do estatuto global do país.

"Os protestos pró-democracia da Praça Tiananmen foram uma libertação única das paixões políticas do povo chinês, mais tarde substituídas pela devoção ao dinheiro", resumiu Yu Hua.

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