Protesto no Rio de Janeiro contra sequestro e tortura de jornalistas por milícias paramilitares
Rio de Janeiro, Brasil, 02 Jun (Lusa) - Centenas de pessoas participam hoje, no centro do Rio de Janeiro, num acto de repúdio ao recente sequestro e tortura de uma equipa de reportagem do jornal O Dia, que também relembra os seis anos do assassínio de um jornalista televisivo.
"É inadmissível que estes actos de agressão contra jornalistas ainda ocorram no Brasil. O jornalista tem o papel de informar à população, mas sem colocar sua vida em risco", disse hoje à Lusa a presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro, Suzana Blass.
No domingo, O Dia noticiou que uma equipe que fazia reportagens sobre a vida de moradores numa favela da zona norte do Rio de Janeiro, controlada por milícias, tinha sido sequestrada e torturada no dia 14 de Maio.
As milícias são grupos paramilitares formados por polícias militares, civis, soldados e bombeiros no activo ou aposentados que, à margem do poder do Estado, actuam coagindo moradores de localidades pobres.
O sequestro foi divulgado apenas agora para não interferir com as investigações.
Uma repórter, um fotógrafo e um motorista do jornal foram espancados e submetidos a choques eléctricos e sufocamento com sacos plásticos pelos milicianos durante mais de sete horas.
A presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro condenou a violência e disse que houve um "atentado à liberdade de imprensa".
"Foi feita uma acção de intimidação à imprensa. Os jornalistas estão assustados e com medo de realizar reportagens nas favelas", destacou.
Em nota, o Sindicato dos Jornalistas protestou contra a insegurança no estado do Rio de Janeiro.
"É inaceitável que o governo do Rio de Janeiro não consiga impedir a acção criminosa de seus próprios agentes, integrantes de máfias milicianas que disputam com o tráfico de drogas o domínio das comunidades carentes", destacou o documento.
O comunicado criticou ainda a impunidade em relação aos "falsos agentes da lei que protagonizam a violência" e disse que o Rio de Janeiro está "alarmado com a infiltração do crime em suas instituições públicas".
No domingo, o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, informou, em conferência de imprensa, que os integrantes da milícia e os autores do sequestro e da prática de tortura já foram identificados.
Mas até o momento ninguém foi preso.
De acordo com Beltrame, há actualmente cerca de 80 favelas no Rio de Janeiro subjugadas ao poder de grupos paramilitares.
O secretário de Segurança deverá reunir-se ainda hoje com o Sindicato dos Jornalistas para traçar metas e estabelecer acções que visem garantir as condições de trabalho dos jornalistas.
Em Junho de 2002, o jornalista da TV Globo Tim Lopes, que fazia investigações para uma reportagem sobre a exploração sexual de adolescentes em bailes "funk", foi torturado até à morte e queimado, tendo partes do seu corpo sido encontrados dias depois num cemitério clandestino de uma favela na zona norte da cidade.
Os protestos contra a violência no Rio de Janeiro coincidem com a divulgação do relatório preliminar das Nações Unidas sobre Execuções Arbitrárias, Sumárias ou Extrajudiciais.
"O Rio enfrenta enormes problemas com drogas, facções criminosas e insegurança em geral. Uma polícia eficaz é uma necessidade crónica", diz o documento do relator especial do Conselho de Direitos Humanos, Philip Alston, que visitou o Brasil entre os dias 4 e 14 de Novembro de 2007.
O relatório enfatiza que os cidadãos do Rio estão "menos seguros" e que a polícia tem falhado em conter a acção das gangues nas favelas.
Philip Alston lembra ainda que a polícia foi responsável por 18 por cento dos homicídios no estado do Rio em 2007, matando uma média de três pessoas a cada dia, o que representa 25 por cento a mais que no ano anterior.