Protestos no Canadá. Ministro alerta para ligações entre manifestantes e membros de extrema-direita
Os camionistas canadianos terminaram, esta quinta-feira, o bloqueio ao longo da fronteira com os Estados Unidos, mas ainda se mantêm em Otava, onde as tensões aumentaram quando a polícia tentou acabar com o protesto contra as restrições da covid-19. Face aos contínuos bloqueios e protestos violentos, o ministro federal da Segurança Pública, Marco Mendicino, alertou para a possibilidade de haver ligações entre os manifestantes que ocupam a capital canadiana e um grupo de membros da extrema-direita, acusado de conspirar para matar agentes da polícia, em Coutts, no início da semana.
Segundo o ministro canadiano, quatro dos indivíduos detidos estão acusados de conspirar para assassinar agentes da Real Polícia Montada do Canadá. As outras nove pessoas foram presas por posse de arma e por provocar “danos” considerados pela polícia como “ameaça significativa e organizada por um grupo armado”.
“A atividade criminosa perigosa que acontece longe das câmaras de televisão e das redes sociais foi real e organizada”, disse Mendicino numa conferência de imprensa na quarta-feira, referindo-se às detenções.
“Podia ter sido fatal para cidadãos, manifestantes e polícias. Temos de estar atentos à gravidade destes incidentes e, de facto, vários dos indivíduos em Coutts têm fortes laços com uma organização de extrema direita com líderes que estão em Otava”, afirmou, segundo cita o Guardian.
As declarações do ministro canadiano podem aumentar o receio de grupos extremistas estejam envolvidos na onda de protestos nacional, que começou como apenas um protesto contra as restrições de combate à covid-19 e se tornou uma manifestação de criticas ao Governo.
Na capital do Canadá, as forças policiais alertaram, nos últimos dias, os motoristas para saírem, ameaçando com o risco de detenção. Os manifestantes abandonaram os protestos ao longo da fronteira com os Estados Unidos.
Com a retirada, todas as passagens de fronteira foram abertas pela primeira vez em mais de duas semanas de bloqueio. Mas, em Otava, “polícias destacados” vestidos com coletes amarelos foram bater às portas de cada camião estacionado junto ao parlamento canadiano, para entregar folhetos aos camionistas com o aviso de que poderiam ser processados, perder as licenças e ver os seus veículos serem apreendidos. Além de terem começado a multar as viaturas.
Segundo a imprensa internacional, alguns camionistas rasgaram o documento, tendo recusado abandonar o locar e manifestando: “Eu nunca vou voltar para casa!”. Os manifestantes buzinaram de forma desafiadora no centro da cidade. Pelo menos um camionista afastou-se do Parliament Hill (Colina do Parlamento, em português).
Com as tensões ainda em Otava, o Governo do Canadá promulgou a Lei de Emergência, que permite que as regras e restrições imposta pelo Executivo entrem em vigor assim que são invocadas.
Os apoiantes dos protestos, conhecidos pelo “Comboio da Liberdade”, argumentam que a grande maioria dos manifestantes são cidadãos pacíficos que apenas estão contra as restrições de combate à pandemia. Mas imagens divulgadas após as detenções em Coutts mostram que alguns dos equipamentos apreendidos tinham o símbolo de uma bandeira com uma faixa branca na diagonal sobre um fundo preto.
BREAKING: Gear seized by police at #Coutts includes a plate carrier with Diagolon patches. Diagolon is an accelerationist movement with members and chapters across Canada. Its de factor leader is Jeremy MacKenzie.
— Canadian Anti-Hate Network (@antihateca) February 15, 2022
1/pic.twitter.com/SPTrbXkOjh pic.twitter.com/z7J9ZdCjUk
De acordo com os investigadores da Anti-Hate Canada, este símbolo é a bandeira de um país satírico de Diagolon – Estado separatista fictício que se estende do Alasca à Flórida - e o emblema de um movimento “neofascista” e de milícias com o mesmo nome. O grupo não está associado a qualquer ato de violência, até ao momento, mas os analistas consideram que se está a formar uma “rede de milícias”.
No canal dessa organização no Telegram, os membros apoiaram, nos últimos dias, os protestos em Coutts e em Otava, tendo ainda partilhado imagens da cabeça do primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau, numa montagem.
Os investigadores acreditam, menciona o jornal britânico, que o líder deste grupo será o conhecido ativista de extrema-direita Jeremy MacKenzie, um veterano de guerra, que serviu as Forças Armadas do Canadá no Afeganistão. Em abril de 2021, MacKenzie disse, num vídeo em direto: “Vamos ao Parliament Hill e queimamo-lo”.
Em janeiro, MacKenzie foi preso por porte de armas, estando a aguarda julgamento em liberdade neste momento. Quando foi libertado, o ativista foi para Otava por altura do início dos bloqueios dos camionistas. Contudo, não há provas de esteja associado às manifestações ou seja líder do grupo de pessoas que foi detido em Coutts, esta semana.
Depois de o Governo ter invocado a Lei de Emergência, MacKenzie voltou a fazer um comunicado em direto na rede social, insistindo: “Ninguém vai a lado nenhum. Não estão a assustar ninguém. Querem dançar? Vamos dançar”.
“Eu estava pronto para morrer no Afeganistão por uma causa na qual nem eu acreditava ou me importava. Mas eu importo-me muito com isto”, acrescentou.
As autoridades da capital canadiana admitem estar preocupadas com a hipótese de haver manifestantes com armas de fogo, e que a agitação nacional se agrave.
“O que estamos a começar a ver agora são as marcas de uma organização sofisticada e capaz de um pequeno número de indivíduos, mas com uma determinação de aço, impulsionada por uma ideologia extrema que tenta derrubar o governo existente”, afirmou Mendicino.
Sabe-se que o grupo anti-vacinas Hold Fast está em Otava e que publicou, no Facebook, que se sente o “cheiro de guerra civil a chegar ao Canadá”.
Já o líder do Canada First, um grupo de extrema-direita e antissemita que tem sido presença constante nos bloqueios no país, afirmou recentemente que “Trudeau não pode impedir o que é inevitável”.
Os protestos atraíram o apoio da extrema-direita e foram aplaudidos e receberam doações de conservadores norte-americanos, provocando queixas em alguns setores sobre os Estados Unidos serem uma má influência para o Canadá.