Putin indigita novo chefe de Governo a seis meses das presidenciais

O Kremlin deu esta quarta-feira os primeiros passos na estratégia para a sucessão de Vladimir Putin nas presidenciais de Março de 2008. O Presidente russo aceitou a demissão do primeiro-ministro Mikhail Fradkov e propôs à Duma a nomeação de outro tecnocrata para a chefia do Governo – o actual chefe do Serviço Federal de Monitorização Financeira, Viktor Zubkov.

Carlos Santos Neves, RTP /
A indicação de Zubkov vem lançar a confusão entre os analistas políticos EPA

A notícia da demissão de Mikhail Fradkov chegou a ser vista como o primeiro acto de uma provável reposição dos acontecimentos de 1999. Foi nesse ano que Vladimir Putin tomou em mãos o cargo de primeiro-ministro. No espaço de meses seria indigitado para a chefia do Estado pelo próprio Presidente Boris Ieltsin, então em pronunciado declínio.

A indicação de Zubkov vem lançar a confusão entre os analistas políticos russos e deixa em aberto a questão da escolha do herdeiro político do Presidente Putin, impedido pelos preceitos constitucionais de se lançar na corrida a um terceiro mandato consecutivo.

A opacidade do Kremlin de Vladimir Putin ficou, aliás, patente nas primeiras declarações do Presidente após o anúncio da demissão do Executivo de Fradkov. Embora tenha deixado no ar a ideia de que esta é uma primeira etapa das manobras para a sua sucessão, Putin legou ao presidente da Duma, Boris Gryzlov, a tarefa de revelar a escolha para o posto de primeiro-ministro.

“Todos temos de pensar em conjunto como construir uma estrutura de poder que corresponda melhor ao período pré-eleitoral e prepare o país para o período após as eleições presidenciais”, afirmou o Presidente russo, antes de deixar o Kremlin para uma visita à região do Volga.

Ao lado de Putin, Mikhail Fradkov manteve-se fiel ao seu perfil de homem do Presidente, justificando o seu pedido de demissão com o argumento da aproximação de “acontecimentos políticos significativos no país”.

De acordo com a Constituição russa cabe agora à Duma aprovar o nome proposto pela Presidência. A votação, adiantou Boris Gryzlov, deverá ocorrer na próxima sexta-feira em sessão plenária da câmara baixa do Parlamento. “Amanhã todas as facções terão a possibilidade de se reunirem com o candidato ao cargo de primeiro-ministro”, acrescentou.

A ampla maioria do campo político de Putin (Rússia Unida) no Parlamento prenuncia uma sexta-feira tranquila para o primeiro-ministro indigitado Viktor Zubkov, um alto quadro do Ministério das Finanças pouco conhecido do grande público.

Nos círculos de analistas políticos russos, o papel de provável delfim de Putin tem sido depositado sobre os ombros de Serguei Ivanov, um dos vice-primeiros-ministros do Executivo demissionário e ex-titular da pasta da Defesa.

Na manhã de quarta-feira, o diário financeiro russo Vedomosti noticiava, citando uma fonte da Presidência, que Serguei Ivanov ascenderia à chefia do Governo e que essa era “uma questão praticamente decidida”. Mais tarde, em declarações à agência France Presse, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, saiu a terreiro para descartar todos os “rumores e especulações”.

Para Natalya Orlovam, economista-chefe do Banco Alfa de Moscovo citada pela Reuters, Zubkov poderá ser “uma figura de transição”, conduzindo o Governo “até à tomada de posse do novo Presidente”.

Por sua vez, Vyacheslav Nikonov, do centro de análise Politika Foundation, afasta o cenário de reedição da estratégia implementada por Ieltsin em 1999: “Não excluo que outro político possa tornar-se o sucessor, incluindo aqueles que foram citados nos últimos meses. E não acredito que a nomeação de Zubkov signifique que é ele quem substituirá Putin”.
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