Putin sobe a parada e pede "estatuto de Estado" para o sudeste da Ucrânia

Um dia depois de União Europeia ter estabelecido o prazo de uma semana para “refletir” sobre a imposição de novas sanções económicas à Rússia, o presidente Vladimir Putin volta a subir a parada e fala agora da atribuição de um "estatuto de Estado" ao sudeste da Ucrânia. Aparentemente encorajado pela falta de uma resposta mais firme por parte da Europa e dos Estados Unidos à alegada intervenção militar na Ucrânia, o presidente russo desvaloriza as ameaças do Ocidente, acusando a União Europeia de apoiar um golpe de Estado em Kiev.

RTP /
Mikhail Klimentiev, Ria Novosti, Epa

Numa entrevista à televisão estatal russa, Putin disse que são necessárias “conversações substanciais” com Kiev, sobre a criação de um Estado no sudeste da Ucrânia.

“Temos de começar imediatamente conversações substanciais (…) sobre questões que dizem respeito à organização política da sociedade e à (atribuição de] um estatuto de Estado ao sudeste da Ucrânia, a fim de proteger os interesses legítimos das pessoas que aí vivem”, disse.

“A Rússia não pode ficar indiferente enquanto as pessoas estão a ser mortas quase a queima roupa”, acrescentou, descrevendo as ações dos rebeldes pró-russos como “a reação natural de pessoas que estão a defender os seus direitos”.
Putin diz que o Ocidente devia ter previsto a reação da Rússia
Apesar de, oficialmente, Moscovo continuar a desmentir a participação de tropas suas na guerra no leste da Ucrânia, o presidente russo disse que o Ocidente deveria ter previsto qual seria a reação da Rússia à situação, acrescentando que é impossível prever como irá acabar a crise”.

O porta-voz de Vladimir Putin, Dmitri S. Peskov, viria depois a matizar as declarações do chefe de Estado russo, explicando que o presidente não pretendia apelar à independência para o leste da Ucrânia. Segundo ele, Putin estava a apelar a negociações inclusivas que ofereçam uma maior autonomia para o sudeste, com este a permanecer parte do país.

Apesar desta explicação, os observadores acreditam que a escolha das palavras "estatuto de Estado" não foi uma escolha casual de Putin. Desde o início da crise que o presidente russo e a imprensa e televisões oficiais se têm vindo a referir ao sudeste da Ucrânia, como “Novorossya” ou Nova Rússia, um termo que, anteriormente, só era utilizado pelos ideólogos mais radicais do nacionalismo russo.

Trata-se de uma maneira pouco subtil de sugerir que aqueles territórios não pertencem verdadeiramente à Ucrânia, já que “Novarossiya” era o nome histórico da região no tempo em que pertencia ao império russo.

"Mapa Região Novorrosiya" por Shliahov - Obra própria licenciada sob Creative Commons Attribution 3.0 através da Wikimedia Commons

Acrescente-se que a utilização deste termo arcaico faz supor uma ambição que se estende muito para além dos territórios de Lugansk e Donetsk, atualmente ocupados pelas forças pró-russas apoiadas por tropas de Moscovo. O território histórico da Novarossiya inclui partes das províncias [oblasts] de Dnipropetrovsk, Zaparozhia, Mykolaiv, Kherson e Odessa, que confinam com a península da Crimeia, representando o que é atualmente uma grande parte do leste e do sul da Ucrânia.

As palavras do presidente russo surgem um dia depois do Conselho Europeu de Bruxelas em que os líderes da UE decidiram “dar passos significativos em função da situação no terreno” no sentido de endurecer as sanções económicas à Russia, se Moscovo não mudar de atitude no prazo de uma semana.
Impotência ocidental
No entanto, para além de um eventual endurecimento das sanções, tanto as grandes nações europeias como os Estados Unidos excluem  qualquer envolvimento militar no conflito, recusando-se mesmo a fornecer ajuda militar à Ucrânia, apesar dos pedidos insistentes de ajuda que vêm de Kiev.

Putin tem vindo a deixar claro, pelas suas ações, que não se importa com os efeitos das sanções económicas na debilitada economia do seu país. O presidente russo tem mesmo feito questão de subir a parada cada vez que o Ocidente anuncia um novo pacote de medidas.

Os observadores estão divididos sobre as verdadeiras intenções de Putin, ao reclamar um Estado pró-russo na Ucrânia. Alguns acreditam que se trata de um objetivo real, com base no  envolvimento direto de tropas russas (mais de mil segundo a NATO), nos combates com as forças ucranianas. Outros acreditam que se trata apenas de uma tática negocial do presidente russo para pressionar o governo de Kiev a negociar a federalização do país nos termos pretendidos por Moscovo.

O Kremlin conseguiria assim o seu objetivo principal, que parece ser o de impedir a qualquer custo a aproximação da Ucrânia à União Europeia e à NATO, mantendo ao mesmo tempo um grande latitude de influência nos assuntos internos daquele país. Para isso, Moscovo precisa de garantir que os separatistas pró-russos não sejam derrotados no teatro de operações, o que explica o mal disfarçado reforço do apoio russo aos rebeldes a que o mundo tem vindo a assistir nos últimos dias.

Uma coisa parece certa, Putin adianta-se uma vez mais aos Estados Unidos e à Europa, obrigando os seus divididos e indecisos adversários ocidentais a reagirem, sempre um passo atrás, aos factos consumados nesta sinistra partida de xadrez que, desde abril, já ceifou mais de 2600 vidas ucranianas e russas.
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