Quadros da Frelimo perderam valores originais
Maputo, 07 jun (Lusa) - O académico moçambicano Lourenço do Rosário considera que alguns quadros da Frelimo mudaram em relação aos valores que defenderam na luta contra o colonialismo português, referindo que "o poder é como uma bala de açúcar".
"Houve mudanças no comportamento das pessoas, as mesmas pessoas que defendiam o comunismo, defendiam a igualdade, são as mesmas que dizem que lutaram para ser ricos, o defeito não está no pensamento, o defeito está no comportamento dos protagonistas, este é que o grande problema", refere Lourenço do Rosário.
Recuperando a famosa máxima do primeiro chefe de Estado moçambicano, Samora Machel, que dizia que "o poder é como uma bala de açúcar", o académico, atual reitor da universidade A Política, a primeira privada em Moçambique, aponta a alegada participação de altos membros da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) em atos de corrupção, como exemplo da inversão de conduta nos quadros do partido libertador.
"O `poder é como uma bala de açúcar`, vai envenenado aos poucos, e você, de repente, já está a achar natural receber, primeiro, pequenas comissões e, depois, a exigir algumas comissões, e depois a exigir participação nos negócios que não são seus, porque você não é privado, está num lugar público, mas começa a privatizar o lugar público", afirma Lourenço do Rosário.
As questões de justiça social, enfatiza o académico, estavam no centro da luta dirigida pela Frelimo pela independência, mas o partido esteve sempre exposto ao risco de repetição dos defeitos do colonialismo português.
"Teoricamente, costuma-se dizer que, quando um oprimido se liberta de um opressor, o grande perigo que o oprimido corre é acabar por adoptar os defeitos do opressor vencido, esta é a teoria política", considera o atual membro da equipa de mediação das negociações entre o Governo da Frelimo e a Renamo.
"As mesmas pessoas que lutaram, que tinham valores, são as mesmas pessoas que hoje são acusadas de corruptas, são figuras históricas", assinala.
Para o reitor, a Frelimo converteu-se numa máquina de ganhar eleições, não pela pureza das ideias, porque recorre à demagogia, tirando partido do facto de as multidões terem memória curta.
"A Frelimo, ao longo dos 40 anos, transformou-se numa grande máquina de ganhar eleições, não há outra máquina aqui em Moçambique capaz de ganhar as eleições da forma como a Frelimo faz", sublinha Lourenço do Rosário
Mal acabou uma eleição, sustenta, está a preparar-se para outra, nesse aspeto, a Frelimo percebeu perfeitamente a regra do jogo, acrescenta.
Sobre a mudança da Frelimo, de partido marxista-leninista para os ideais da democracia liberal, no início da década de 1980, entende que a alteração não foi repentina e foi provocada pelas graves dificuldades económicas que o país conheceu e acelerada pelo esboroamento do bloco comunista.
De acordo com o académico, a abertura "não é abruta, começa por ser uma abertura económica, porque o país estava a atravessar grandes dificuldades do ponto de vista económico, não só pela própria gestão do Estado, mas também pela hostilidade dos países vizinhos"
Começa a haver uma necessidade de abertura económica, o país adere às instituições financeiras internacionais, Samora Machel aproxima-se de Ronald Reagan e há uma distanciação dos aliados naturais do leste europeu observa,
"Há uma serie de coisas históricas que vão acontecendo para libertar o país do esparto da carência económica, naturalmente que essa abertura económica vai trazer os ventos do pensamento liberal que a economia capitalista traz", realça ainda Lourenço do Rosário.