"Quando vamos parar com esta carnificina?". EUA em choque após tiroteio em escola no Texas

por Andreia Martins - RTP
Gustavo Garcia-Siller, arcebispo da cidade de San Antonio, Texas, conforta familiares perto da escola primária de Robb, em Uvalde. Marco Bello - Reuters

Pelo menos 21 pessoas, 19 crianças e dois adultos, morreram na terça-feira na sequência de um tiroteio numa escola primária no Texas. O atirador era Salvador Ramos, um homem de 18 anos que foi abatido pela polícia após o massacre e que terá alvejado a própria avó antes de seguir para a escola. Num país onde os massacres e tiroteios são recorrentes, o presidente norte-americano, Joe Biden, apelou à luta contra o poderoso lobby das armas. "Temos de ter coragem para nos levantarmos contra esta indústria", afirmou.

O ataque ocorreu na escola primária de Robb, em Uvalde, no sul do Texas. Nesta escola, com uma comunidade predominantemente hispânica, estão inscritas cerca de 500 crianças.

Uvalde fica a menos de 130 quilómetros da fronteira com o México e abriga um posto da Patrulha de Fronteira. De acordo com a Associated Press, pelo menos dois agentes desta agência federal deslocaram-se ao local aquando do tiroteio e ficaram feridos na sequência de uma troca de tiros com o atacante.

O atirador foi identificado como Salvador Ramos, um homem de 18 anos que terá operado sozinho. Roland Gutierrez, senador estadual no Texas, indicou que o suspeito alvejou a avó em sua casa antes de seguir para a escola. A mulher de 66 anos está em estado crítico no hospital.

Salvador Ramos tinha comprado recentemente duas armas de assalto numa loja de Uvalde, a “primeira coisa que fez quando fez 18 anos”, indicou o senador.

Este é o segundo tiroteio em massa nos Estados Unidos em apenas dez dias. A 14 de maio, um homem matou dez afro-americanos num supermercado em Buffalo, no estado de Nova Iorque, no que foi classificado como um crime de ódio com motivações raciais. O suspeito deste ataque foi identificado como Payton Gendron, também de 18 anos.
“Temos de fazer mais”

Numa declaração horas depois do ataque, o presidente Joe Biden dirigiu-se ao país num discurso emocionado. “Outro massacre numa escola primária. Crianças lindas e inocentes, no segundo, no terceiro e no quarto ano. Como nação temos de perguntar: quando, em nome de Deus, vamos enfrentar o lobby das armas?”, questionou.

O presidente norte-americano lembrou que outros países “têm problemas de saúde mental” e que há divergências “domésticas” ou “pessoas perdidas” um pouco por todo o mundo.

“Mas este tipo de tiroteios em massa não acontecem com a frequência que acontecem nos Estados Unidos. Porquê? Porque estamos dispostos a viver com esta carnificina?”, acrescentou o presidente.

Joe Biden disse estar “cansado” deste tipo de crimes e apelou à ação para travar a “carnificina” dos tiroteios nos Estados Unidos.

“Temos de ter coragem para nos levantarmos contra esta esta indústria. Temos de fazer mais. É errado que um miúdo de 18 anos possa entrar numa loja e comprar uma arma”, afirmou.
Sandy Hook, Buffalo, Texas

O massacre no Texas ocorre praticamente dez anos após o tiroteio em massa de Sandy Hook, no Connecticut, em dezembro de 2012, onde morreram 20 crianças de cinco, seis e sete anos e outros seis adultos.

“Esperava que, quando me tornasse presidente, não tivesse de fazer isto de novo”, afirmou Joe Biden, que era vice-presidente dos EUA há dez anos.



"Desde então, registaram-se mais de 900 incidentes de tiroteios em escolas. (...) A lista cresce ainda mais quando incluímos tiroteios em massa em lugares como cinemas, casas de culto, ou como vimos há apenas dez dias, num supermercado em Buffalo, Nova Iorque", recordou.

Quem também reagiu ao tiroteio foi o ex-Presidente democrata, Barack Obama, que criticou a inação por parte do Partido Republicano.

“Quase dez anos depois de Sandy Hook – e dez dias depois de Buffalo – o nosso país está paralisado, não pelo medo, mas por um lobby de armas e por um partido político que não demonstra vontade de agir de qualquer maneira que possa ajudar a evitar estas tragédias”, escreveu no Twitter.


Destaque também para o discurso emocionado de Chris Murphy, senador democrata pelo Connecticut, que assumiu funções no Congresso pouco depois do massacre de Sandy Hook.

Horas após o tiroteio em Uvalde, questionou os colegas senadores: “O que estamos aqui a fazer?”

“Há mais tiroteios em massa do que dias no ano. As nossas crianças vivem com medo. Isto não acontece em mais lado nenhum a não ser nos Estados Unidos. Isto é uma escolha, é uma escolha nossa deixar que isto continue a acontecer”, declarou.

Já esta quarta-feira, o papa Francisco afirmou estar “de coração partido” com o tiroteio no Texas. “Rezo pelas crianças e pelos adultos que morreram e pelas suas famílias”, afirmou durante na audiência geral no Vaticano.

“É tempo de dizer basta ao tráfico indiscriminado de armas. Vamos comprometer-nos para que tragédias como esta não voltem a acontecer”, acrescentou Francisco.
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