Quarteto insta Israel a parar expansão dos colonatos
O Quarteto para o Médio Oriente insta Israel a que pare com o crescimento dos colonatos e com as demolições e expulsões na zona oriental de Jerusalém. As relações entre Estados Unidos e Israel atingem o seu ponto mais baixo na última década.
O conclave declara-se mesmo "profundamente preocupado" com a deterioração da situação em Gaza e disso deu conta num comunicado divulgado no final da reunião.
"O Quarteto exorta o governo israelita a parar todas as actividades de colonização incluindo as destinadas ao crescimento demográfico natural, a desmantelar todos os postos avançados construídos depois de Março de 2001 e de se abster de proceder a demolições e expulsões na zona ocidental de Jerusalém", leu o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-Moon reproduzindo o texto acordado pelas quatro entidades que participaram na reunião.
Os quatro dignitários presentes na reunião de Moscovo estão, por outro lado, "profundamente preocupados com a constante deterioração em Gaza, nomeadamente a situação humanitária e dos direitos humanos da população civil".
Depois do ultimato da semana passada de Hillary Clinton para que Israel pare com os projectos de construção na zona oriental de Jerusalém, segue-se agora o apelo do Quarteto e da comunidade internacional representada pelo secretário-geral da ONU.
Aliança começa a abrir brechas
A questão da criação de bairros judeus na zona oriental da cidade Santa de Jerusalém pode marcar o início de um esfriamento das relações fortes e estratégicas entre Israel e os Estados Unidos.
Como afirmava Benjamin Netanyahu ao receber o presidente do Brasil Lula da Silva, todos os governos israelitas desde os trabalhistas aos conservadores tiveram a responsabilidade de construir e promover a instalação de judeus na zona oriental de Jerusalém.
A verdade é que também nunca nenhum governo norte-americano pediu aberta e explicitamente a Israel que parasse com essa sua politica. Nunca até à semana passada quando pela voz da ex-candidata à nomeação para a candidatura presidencial e actual responsável pela importante pasta dos Negócios Estrangeiros norte-americana, a mulher do antigo presidente dos Estados unidos Bill Clinton, Hillary fez, pela primeira vez ao longo de uma longa e estratégica aliança entre os dois países, esse pedido expresso.
Hillary Clinton lançou um ultimato a Israel para que parasse imediatamente com o plano de construção de 1600 habitações para judeus em Ramat Shlomo.
EUA com política externa "desastrada"
Barack Obama elevou muito alto as expectativas, tanto internas como internacionais, ao ser eleito com a promessa de mudanças radicais na forma dos Estados Unidos verem o mundo.
O primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos determinou de facto uma mudança na linguagem e nas prioridades da diplomacia norte-americana.
Um ano após a sua eleição para a Casa Branca as expectativas goraram-se e muitos são aqueles que concordam - mesmo no campo dos apoiantes de Barack Obama -, em qualificar a política externa do novo presidente como especialmente desastrada.
Desastrada, não apenas em relação aos Israelitas, mas também no que toca à política de aproximação dos EUA a vários regimes autoritários desde a Rússia, à China passando pelo Irão e à custa dos tradicionais aliados de Washington.
A conclusão que tiram os detractores da política norte-americana é que este novo posicionamento da grande super-potência não só não trouxe quaisquer resultados positivos e visíveis como também permitiu um endurecimento das posições desses países.
Políticos e militares israelitas estão no entanto, de acordo numa coisa. A aliança estratégica com os Estados Unidos da América é importantíssima para Israel, mais do que o profissionalismo das Forças Armadas de Israel, mais que o cumprimento do acordo de paz com o Egipto ou das armas de destruição massiva que Israel possa camufladamente, ou não, ter.
Os Estados Unidos têm o tempo necessário e os recursos essenciais para poderem cometer erros mesmo os mais graves e depois corrigi-los. Israel não tem nem um nem outros.
As relações entre EUA e Israel atingiram o seu ponto mais baixo desde que há 12 anos atrás um grande grau de animosidade marcou a diplomacia entre os dois aliados. Curiosamente tanto então como agora era Primeiro-Ministro Benjamim Netanyahu.
Culpas repartidas
O primeiro-ministro israelita não é, por seu lado, alheio ao esfriamento das relações com a grande potência além oceano. Ele próprio e o seu governo têm cometido muitos erros na condução da sua diplomacia externa e na política interna com reflexos no relacionamento com o aliado tradicional.
Os erros cometidos pelo líder governamental israelita podem ser atribuídos a vários responsáveis. Desde logo aos seus aliados. Metade do seu governo prossegue uma agenda que entra em clara colisão com Washington e as suas posições. Mesmo muitos membros do partido de Netanyahu alinham por interesses opostos aos de Washington.
O Partido Shas, por exemplo - visando ganhar os votos da extrema-direita e das comunidades ultra-ortodoxas - apoia e incentiva as construções de baixo custo para a instalação de famílias Haredi, tanto na zona oriental de Jerusalém como na margem ocidental.
Netanyahu não está, no entanto, isento de culpas. Ao nomear Avigdor Lieberman para o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros e Eli Yishai para o de ministro do Interior e apoiar as suas posições sabe que está a desagradar aos EUA e a afrontar as posições do seu aliado. Ao confiar na poderosa comunidade judaica norte-americana para garantir o apoio do colosso americano ao Estado de Israel comete também um erro, já que há quem diga, que sendo Barack Obama anti-israelita, havendo mesmo quem o qualifique como anti-semita, a influência dessa comunidade poderá não ser tão determinante como o foi noutras épocas.
Se é verdade que nas últimas quatro décadas tem sido consensual em Israel, tanto ao nível da comunidade política como da civil, a política de um território - dois estados, se há alguém que pode aspirar a inverter essa política são os Estados Unidos, tradicional e estratégico aliado de Israel, interessado em construir uma solução de paz permanente numa zona do globo que há décadas vive num ambiente de antagonismo e ódio.
Na próxima semana Benjamim Netanyahu vai aos Estados Unidos participar numa iniciativa da comunidade judaica. A ocasião pode ser soberana para que esta poderosa comunidade prove a sua lealdade para com a América país de acolhimento e para com Israel país do coração. Talvez ajudem a convencer os políticos israelitas de que pisaram uma linha e que, caso queiram manter e fortalecer a aliança com a América, deverão dar um passo atrás e rever a sua política interna. Caso o não façam, pode estar em risco não só as relações com os Estados Unidos mas muito pior a própria segurança do Estado Judaico.