Quase um terço dos municípios angolanos com incidência de pobreza acima dos 90%

Luanda, 28 nov 2019 (Lusa) -- Cerca de nove em cada dez angolanos são pobres e dos 164 muncípios de Angola, 65 apresentam uma incidência e intensidade de pobreza acima dos 90%, revela o Índice de Pobreza Multidimensional por Municípios (IPM-M).

Lusa /

O estudo elaborado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) de Angola, com base nos dados do Censo Populacional de 2014, contou com o apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Humano (PNUD) e da Universidade de Oxford, e foi hoje apresentado em Luanda.

No IPM-M foram analisadas quatro dimensões - saúde, educação, qualidade da habitação e emprego -- e 11 indicadores (água, frequência escolar, desemprego juvenil, saneamento, eletricidade, desemprego adulto, registo civil, combustível para cozinhar, dependência, escolaridade e habitação), concluindo-se que o município com maior índice de pobreza em Angola é o Curoca (0,753), da província do Cunene.

Depois do Curoca seguem-se os municípios de Chicomba (0,639), na província da Huíla, e Capenda-Camulemba (0,608), província da Lunda Norte, com os maiores IPM-M do país.

"No extremo oposto está o município de Luanda, da província de Luanda, com um IPM-M de 0,029 e Lobito, na província de Benguela (0,110), entre outros", lê-se no estudo.

Na análise aos municípios de Luanda, capital de Angola, verificou-se que o município com o IPM-M mais elevado é a Quiçama, com 0,435.

Em Luanda, os municípios da Quiçama e Icolo e Bengo apresentam uma incidência de cerca de 70% e 75%, respetivamente, significando que, pelo menos, sete em cada dez pessoas nessas regiões são multidimensionalmente pobres.

"Entretanto, importa realçar que os municípios de Luanda e Cazenga, apesar de apresentarem uma incidência relativamente baixa (7% cada um), apresentam uma intensidade de 44%, mostrando que os pobres sofrem em média 44% de privações dos indicadores selecionados. O que quer dizer que os pobres nestes municípios apresentam uma intensidade elevada de pobreza", indica o relatório.

No município da Quiçama, em Luanda, a percentagem de contribuição para o IPM-M é maior no que diz respeito à falta de saneamento (18%), seguido da água (16%) e eletricidade (14%).

Na província do Cunene, dos seus seis municípios, o Curoca apresenta problemas de saneamento na ordem dos 16%, de água 12% e de eletricidade e combustível para cozinhar 11% cada.

No Cunene, em todos os municípios, os indicadores sobre água, saneamento e eletricidade da rede pública contribuem com mais de 40% para a pobreza dos mesmos.

Em declarações à imprensa, Eliana Quintas, técnica sénior do INE, que procedeu à apresentação dos resultados, disse que o estudo permitiu concluir que em todos os municípios de Angola há pobreza.

Eliana Quintas realçou que, em cada 100 pessoas no Curoca, 98 são pobres em todas as dimensões.

"Por exemplo, no município do Curoca, temos uma incidência de 98% e uma intensidade de pobreza de cerca de 77% nos 11 indicadores das quatro dimensões. Então eles são muito pobres e intensamente pobres", disse.

A responsável acrescentou que os dados mostram que os municípios que se encontram no litoral são os que têm uma incidência de pobreza mais baixa, enquanto que os do sul e uma parte do leste são os mais pobres.

Segundo Eliana Quintas, o INE retratou a situação dos municípios para ajudar as autoridades a classificarem e priorizarem as suas políticas de combate à pobreza.

Questionada se desde 2014,os dados agora apresentados não estão desajustados face ao tempo percorrido e a situação de crise económica, a técnica sénior do INE rejeitou, afirmando que "não houve muita alteração", o que justificou dizendo que "o INE tem feito alguns inquéritos de acompanhamento, que podem confirmar que os dados não mudam muito".

Eliana Quintas anunciou que depois deste relatório, começa a ser elaborado, no primeiro trimestre de 2020, o IPM provincial, analisando zonas rurais e urbanas, com base nos resultados do Inquérito de Indicadores Múltiplos de Saúde de 2020.

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