Guerra na Ucrânia
Quatro anos de guerra na Ucrânia: O tempo como arma, o desgaste como estratégia
Oficialmente, o Kremlin continua a designar a invasão lançada a 24 de fevereiro de 2022 como "operação militar especial", nunca utilizando a palavra "guerra" nas comunicações internas. No entanto, no terreno e no direito internacional, esta é a fase mais intensa de um conflito armado que começou em 2014 com a anexação da Crimeia e o apoio militar russo aos separatistas do Donbass.
Entre 2014 e 2022, a frente congelou no leste da Ucrânia numa guerra conhecida como de "baixa intensidade", feita de trincheiras, bombardeamentos e cessar-fogos que nunca foram totalmente respeitados.
A ofensiva em grande escala de 2022 alargou brutalmente o conflito a uma grande parte do território ucraniano e colocou a economia em modo de guerra, sem quebrar a continuidade política e militar com a sequência aberta na Crimeia.
Para o investigador belga Alain De Neve, esta evolução altera também os objetivos possíveis dos beligerantes: "Os efeitos surpresa já não são possíveis numa guerra deste tipo que dura, que se inscreve no longo prazo", explica, estimando que se torna "no mínimo remoto, se não completamente irrealista" esperar um colapso rápido do campo adversário.
O conflito entra então numa "lógica de desgaste, de desgaste material e psicológico" que se faz sentir "dos dois lados da linha da frente".
Uma longa história de guerras russo-ucranianas
Os confrontos armados entre russos e ucranianos não começaram no século XXI: fizeram parte de vários séculos de guerras, insurreições e campanhas pelo controlo das terras ucranianas. Os historiadores referem, em particular, as guerras em torno do Hetmanato Cossaco no século XVII, quando os cossacos tentaram jogar Moscovo, Varsóvia e outras potências umas contra as outras, a fim de preservar a sua autonomia.
No século XVIII, as revoltas dos cossacos e dos Haidamak, bem como a destruição do Zaporogue Sitch, marcaram a vontade do Império Russo de desmantelar as estruturas militares e políticas autónomas da Ucrânia. As guerras soviético-ucranianas de 1917-1921, que viram a República Popular da Ucrânia ser confrontada pelo Exército Vermelho antes da sua integração na URSS, criaram um precedente importante para a luta pela independência de Moscovo na memória política de Kiev.
Após 1945, a resistência armada do Exército Insurreto Ucraniano (UPA) no oeste do país prolongou ainda mais este ciclo de violência, mesmo que tenha permanecido largamente obscurecido na narrativa oficial soviética.
Se somarmos estes episódios, podemos contar cerca de dez grandes guerras, campanhas ou insurreições que opuseram as forças ucranianas, sob várias formas, ao Estado russo ou soviético entre o século XVII e os dias de hoje, o que explica por que razão em Kiev a guerra aberta desde 2014 é vista como um novo capítulo, e não como um acidente isolado.
Esta profundidade histórica também se reflete na narrativa russa, salienta o investigador Alain De Neve, que observa que Moscovo está a trabalhar na sua "narrativa para justificar uma guerra longa e apresentar o envolvimento militar como uma necessidade histórica". Segundo De Neve, esta construção discursiva serve para explicar aos russos "porque é que a Rússia está envolvida numa guerra longa, porque não tem escolha", mesmo que isso implique procurar "objetivos de valor diferente" para "dar sentido a este esforço de guerra" que é maior do que o esperado.Da guerra curta à guerra longa
A história militar oferece uma grande variedade de durações: algumas guerras são resolvidas numa questão de minutos ou dias, outras duram décadas ou mesmo séculos. A Guerra Anglo-Zanzibari de 1896 é frequentemente apresentada como um dos conflitos mais curtos. Em 1861, França e Reino Unido assinaram um tratado que garantia a independência do Sultanato de Zanzibar, ao largo da atual Tanzânia. No entanto, em 1890, a ilha tornou-se um protetorado britânico.
Seis anos mais tarde, o sultão Hamad ibn Thuwaïni foi envenenado pelo seu primo, Khalid ibn Bargach, que se autoproclamou soberano em 25 de agosto de 1896. Hostil à tutela britânica, Khalid recusou-se a reconhecer a autoridade do cônsul britânico, violando assim o procedimento imposto para qualquer sucessão ao trono. Em resposta, os britânicos exigiram a sua retirada e enviaram-lhe um ultimato.
Às 9 horas da manhã do dia 27 de agosto, este prazo expirou. Dois minutos depois, a frota britânica abriu fogo sobre o palácio. Em menos de quarenta minutos - depois de destruir o palácio e neutralizar as forças de Zanzibar - a resistência caiu. Refugiando-se no consulado alemão, Khalid acabou por fugir para a África Oriental Alemã. Os britânicos instalaram então um sultão dócil, Hamoud ibn Mohammed. Esta "Guerra Anglo-Zanzibar" fica assim registada na história como o conflito armado mais curto de que há registo: 38 minutos.
No outro extremo, a Reconquista na Península Ibérica estendeu-se por quase oito séculos, desde o século VIII até 1492, com alternância de campanhas, tréguas e alianças.
Outros conflitos muito longos, como a Guerra dos Cem Anos, uma série de conflitos entre os reinos de França e de Inglaterra, de 1337 a 1453, resultaram de uma crise de sucessão ao trono francês. Começou com grandes vitórias inglesas, como as de Crécy e Azincourt, que enfraqueceram muito a monarquia francesa. A partir do século XV, a situação inverteu-se graças à Reconquista Francesa, marcada nomeadamente pela epopeia de Joana d'Arc e pela libertação de Orleães.
O conflito terminou com a vitória da França na Batalha de Castillon, que pôs fim à presença militar inglesa, para além de Calais, e reforçou o poder real francês. A sucessão de guerras entre potências europeias mostra como estes ciclos de guerra e paz acabam por moldar fronteiras, identidades nacionais e equilíbrios de poder a longo prazo.
De acordo com Alain De Neve, quando o colapso rápido do adversário já não é uma opção, a vitória depende da capacidade de cada lado "durar mais que o adversário", nomeadamente preservando os ciclos de regeneração em termos de homens, equipamento e munições.Bélgica: um pequeno país, muitas guerras
Desde a sua independência em 1830, a Bélgica tem sido frequentemente descrita como um Estado neutro, mas a sua história militar está longe de ser imaculada. As principais listas históricas enumeram cerca de vinte guerras ou conflitos envolvendo a Bélgica ou o seu império colonial: a Revolução Belga, as campanhas de independência, Primeira e Segunda Guerras Mundiais, Guerra da Coreia, a crise congolesa, as intervenções no Zaire, a participação em operações multilaterais no Kuwait, Kosovo, Afeganistão, Líbia e contra a organização Estado Islâmico.
As operações levadas a cabo através do Estado Independente do Congo e depois do Congo Belga - a Guerra Belgo-Árabe, as rebeliões em Katanga e noutros locais - colocam a Bélgica no contexto das guerras coloniais que se estendem por várias décadas.
Para um país cuja neutralidade era garantida por tratado, esta sucessão de compromissos defensivos, coloniais e multilaterais recorda que nenhum Estado europeu se manteve verdadeiramente alheio à história bélica do continente.Europa acorda timidamente e prepara-se para a guerra
Alain De Neve sublinha a discrepância entre a imagem pacífica do país e a sua realidade histórica: "Nada pode estar mais longe da verdade do que a ideia de que a Bélgica está relutante em envolver-se ou que está a fazer tudo o que pode para evitar uma confrontação militar", afirma. O investigador recorda ainda que a Bélgica tem estado muitas vezes "a par da história", ao mesmo tempo que é muito ativa a nível multilateral - na ONU ou a nível europeu - para tentar evitar crises, resolvê-las ou limitar a sua recorrência.
O que significa a duração da guerra para as sociedades envolvidas
Na Ucrânia, dez anos de guerra - desde o Donbass em 2014 até às múltiplas ofensivas desde 2022 - já redesenharam o mapa demográfico do país, aceleraram o exílio de uma parte da população e obrigaram o Estado a reorganizar-se para funcionar sob os bombardeamentos. Na Rússia, a duração do conflito está a aumentar o custo humano e financeiro e, em última análise, levanta a questão da aceitabilidade social de uma "operação especial" que se tornou uma guerra de longa duração.
Para o investigador Alain De Neve, este longo período de tempo obriga os jogadores a reverem as suas prioridades: "Uma vez que se trata de um conflito a longo prazo, a ideia é utilizar o tempo como uma arma para obrigar o outro protagonista a desistir da luta", resume.
Nesta configuração, a vitória já não se baseia numa ofensiva decisiva, mas na capacidade de "regenerar gradualmente mas continuamente" as forças, sem necessariamente produzir batalhas espetaculares, mas simplesmente aguentando mais tempo do que o adversário.
Ao colocar os quatro anos da invasão em grande escala no contexto de dez anos de guerra contemporânea - e de vários séculos de confrontos russo-ucranianos - o conflito surge já como um episódio na longa história da Europa. É também o que a trajetória da Bélgica nos recorda: mesmo os Estados que se pretendem neutros ou pacíficos não ficam permanentemente fora da lógica bélica que molda o continente.
Olivier Arendt / 22 fevereiro 2026 06:00 GMT
Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa - RTP