Quénia planta manguezais e corais para mitigar riscos costeiros

por Carla Quirino - RTP
Plantação de manguezais Projeto Mikiko Pamoja

Enquanto populações quenianas residentes no litoral plantam manguezais para restaurar o ecossistema de carbono azul, mergulhadores da fundação REEFolution plantam viveiros de corais perto da ilha de Wasini, no oeste do Oceano Índico. Pelo menos 65 por cento da população do litoral queniano sofrerá o impacto da regressão da linha costeira devido aos processos de erosão e da subida do nível médio do mar.

O Quénia é co-organizador com Portugal, da II Cimeira dos Oceanos da ONU a decorrer em Lisboa. E, tal como Portugal, a ligação com o oceano é intensa. Mas isso obriga aqueles que vivem e dependem das zonas junto ao mar para subsistir a pensar soluções para mitigar a ação das alterações climáticas.

O país tem um litoral de 1.586 quilómetros virado ao Oceano Índico, composto por manguezais, recifes de coral, ervas marinhas e costas rochosas e arenosas. Para além de infraestruturas turísticas, a aquicultura e agricultura são realizadas nas áreas de costa, tornando essas atividades vulneráveis à subida do nível das águas oceânicas.

De acordo com a Organização das Nacões Unidas, 65 por cento da população costeira do Quénia vive em áreas rurais e dedica-se principalmente à atividade pesqueira e alguma agricultura. Estas comunidades correm, no entanto, o risco de perderem o seu modo de vida face à regressão da linha costeira com os processos de erosão e a subida do nível médio do mar.

Zona costeira do Quénia

O país detém a maior infraestrutura portuária da África Oriental, onde os portos Kilindini e Porto Velho representam um papel importante na economia nacional e regional.

Com uma taxa média de 0,3 metros de elevação do nível do mar, estima-se que 17% (4.600 hectares) do distrito de Mombasa ficará submerso.

Estão assim a ser pensadas práticas de gestão de terras para enfrentar inundações e redução de escoamento para o oceano. No Delta do rio Tana, com base nas tendências atuais, cerca de 5,7% da área do delta (481 km2) poderão estar perdidos até 2050.
Projetos para uma costa de mar mais saudável
Na Baía Gazi, na costa sul do Quénia, o mangue é a estrela. A proteção desta floresta, para além de render dinheiro à população, rende 'créditos de carbono' que são concedidos para cada tonelada de emissões de gases de efeito estufa retirada da atmosfera.

As áreas de manguezais são conhecidas por ecossistemas de carbono azul, ou seja, têm capacidade de capturar e reciclar grandes quantidades de carbono da atmosfera.

Muitos moradores locais gerem mais de 117 hectares e, ao plantarem e protegerem as florestas de manguezais, recebem uma compensação. Só este ano a venda dos "créditos de carbono" renderam pelo menos 24 mil euros.

Desde 2013 que estes grupos têm sido motivados a plantar mangues, já que os benefícios vão além do rendimento, com as florestas a ajudar a proteger a terra da erosão costeira e da perda de peixes - e, assim, também a qualidade do ar melhora.

"O manguezal está a prosperar e o ar ficou mais limpo para as aldeias próximas às matas. As matas de mangue também fornecem um terreno fértil para os peixes e, nos últimos 10 anos, notámos um aumento no número de cardumes, ao contrário dos anos anteriores", explicou Abdalla Bakari, um dos colaboradores do projeto, em declarações à Africanews.
Projeto Mikiko Pamoja localizado na baía de Gazi

A área de plantação de manguezais do Quênia caiu de 60.000 hectares, em 2017, para 52.800 hectares, em 2021. Neste ano de 2022 o governo está a incentivar a comunidade para reabilitar o habitat e, em abril, Mtwapa, na costa do Oceano Índico, viu mais quatro mil árvores serem plantadas por um dos grupos da comunidade costeira.

"Hoje vimos que temos muita comunidade envolvida porque eles são os guardiões", explica Stanley Nadir, investigador do Instituto de Pesquisa Florestal do Quênia. "Eles têm conhecimento indígena. Vivem em torno desses manguezais e, portanto, são os primeiros beneficiários dos manguezais. Se houver perda de manguezais, os seus meios de subsistência são afetados", acrescenta.

Entretanto, com o crescimento da população no Quénia, a pressão sobre os recursos marinhos vem ameaçando a sustentabilidade do ecossistema costeiro e o aumento da atividade pesqueira está já a ter impacto negativo no recife das águas quenianas.

Para contrariar esta tendência, a associação REEFolution Kenya associou-se à Wageningen University & Research e ao Serviço de Vida Selvagem do Quénia para desenvolverem um projeto dedicado à educação e restauração de recifes de coral.

A gestão de recifes envolve os moradores locais, que ajudam na identificação de áreas degradadas, instalação e manutenção de viveiros de corais e restauração de recifes.

Esses viveiros são estruturas onde se colocam fragmentos de corais ramificados de vários tipos. Com orientação dos investigadores, as condições de crescimento dos corais nos viveiros são otimizadas e as manchas degradadas dentro do Kisite Marine Park, na ilha Wasini, são restauradas.

Desde 2010, têm sido plantados mais de 8.000 corais por ano. Em junho de 2022, foram colocados mais 800 estruturas de recifes artificiais em Wasini

Estas plantações de coral, se não forem destruídas, irão ajudar a repovoar o mar costeiro com mais peixe e toda a vida marinha que deles depende, o que beneficiará as atividades marítimas e turísticas da região.

Tim McClanahan, zoólogo sénior de conservação da Wildlife Conservation Society, disse ao Washington Post que a prevalência do branqueamento em massa de corais ao longo do Oceano Índico Ocidental vem preocupando os cientistas há décadas, sendo problemas relacionados com as ações humanas.

O investigador acrescentou que os corais de Wasini, em particular, "estão em péssimas condições". "Existem algumas áreas na Tanzânia, Moçambique e Madagáscar que estão em melhores condições. Estamos a trabalhar para proteger esses recifes", sublinhou.

O projeto de restauração dos recifes de Wasini enfrenta a ameaça de destruição e poluição devido à proposta de construção de um porto de pesca em alto mar em Shimoni. Ironicamente, o porto é uma das principais promessas que o governo queniano fez na primeira Cimeira dos Oceanos da ONU em Nairóbi, em 2018, e, de acordo com a publicação norte-americana,  será reiterada durante a II Cimeira em Lisboa, na qual é co-organizador .

Na agenda desta Conferência Oceânica das Nações Unidas está em cima da mesa a necessidade de proteção e restauração dos recifes de coral, essenciais para a saúde dos mares.

A diminuição das populações de peixes desencadeada pela morte de corais aumentou os problemas das comunidades do leste africano. Milhões de pessoas já estão a enfrentar uma crise alimentar agravada por causa de uma seca prolongada na região, combinada com os efeitos da guerra na Ucrânia.
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