Quirguistão - Regime autoritário enfrenta "Revolução da Tulipa"

O regime autoritário do Quirguistão, onde no domingo decorrem eleições legislativas, é contestado no leste e sul do país por milhares de manifestantes, considerados um "vírus" pelo presidente Askar Akaiev, empenhado em sufocar a "Revolução da Tulipa".

Agência LUSA /

Dirigentes da oposição estão impedidos de se candidatar aos 75 assentos em jogo no parlamento, que passa a ter uma só câmara em resultado de um referendo realizado em 2003, num sistema uninominal de voto universal, secreto e directo.

Feliks Kulov, um dos mais influentes políticos locais, chefe do Partido da Dignidade (Ar-Namys) condenado a 10 anos de cadeia em 2002 por alegado desvio de dinheiros públicos - mas segundo a organização Human Right Watch (HRW) por ousar enfrentar Askar Akaiev nas eleições dois anos antes -, está a dirigir, da prisão, uma plataforma da oposição.

A aspiração de protagonismo político de antigos diplomatas quirguizes também foi afastada devido a legislação que proíbe concorrer quem não tenha residido em permanência no país nos últimos cinco anos.

Esta medida pôs fora da liça a diplomata Roza Otunbaieva, uma séria rival da oposição que se queria apresentar no mesmo círculo de uma filha do presidente (Bermet), membro do partido Para a Frente Quirguistão (AK) a que pertencem a mulher de Askar Akaiev (Mayram) e outro filho (Aydar).

Com os órgãos de comunicação social ferreamente controlados, inclusive o jornal MSN, em princípio fiel ao próprio presidente, o poder estabelecido - desde a independência da União Soviética (URSS), em 1991 - é denunciado pelas insistentes promessas de recompensa a quem assegurar nas urnas a continuidade do "partido dinástico".

Askar Akaiev, num discurso televisivo no dia de Natal de 2004, denunciou a "ingerência externa" para fomentar o que designou por "Revolução da Tulipa" nesta república centro-asiática, à semelhança das ocorridas no Cáucaso: Geórgia (Revolução da Rosa, Novembro de 2003) e na Ucrânia (Revolução Laranja, Dezembro de 2004).

Em Março de 2002, a detenção do deputado Azimbek Beknazarov, líder do Partido da Bandeira da Renovação (Asaba), degenerou em confrontos com as forças da ordem, que abriram fogo sobre manifestantes, ferindo dezenas. Desde então, já foram mortos seis opositores do regime.

Agora, a polícia, empenhada em esconjurar o fantasma de uma guerra civil, volta a carregar sobre os manifestantes, disparando à queima-roupa e espancando quem lhe faça frente, com total impunidade.

"Os agentes pressionam as pessoas a confessarem que a oposição está armada", queixou-se um residente na região meridional de Aksy, numa das sete províncias (oblast) do país.

Pelo terceiro dia consecutivo, a tensão marca o quotidiano na região de Kochkor, a 150 quilómetros a sudeste de Bishkek, onde 5.000 manifestantes continuam a impedir a circulação na principal auto-estrada para a vizinha China, em sinal de apoio ao deputado social-democrata do parlamento cessante Akylbek Zhaparov, acusado pela justiça de corromper o eleitorado.

Na região de Tonsk, centena e meia de quilómetros a leste da capital, cerca de 500 manifestantes ocupam desde quarta-feira a sede da administração local, cujos acessos estão bloqueados, declarou o porta-voz do Ministério do Interior, Nurdin Zhangaraiev.

Estas pessoas - lamentou - recusam-se a desalojar o edifício enquanto não for reintegrado nas listas o deputado independente cessante Arslanbek Maliyev.

Mas, nas últimas 24 horas, o Supremo Tribunal acabou por rejeitar os apelos de Zhaparov e Maliyev para a sua inclusão nas listas de candidatos.

Uma tipografia do Centro de Apoio aos "media", custeado por um programa norte-americano e dirigido pelo grupo Casa da Liberdade, foi privada de electricidade e encerrada na terça-feira, sob a alegação de estar a imprimir material subversivo.

Mike Stone, director do programa, assinalou que na quarta-feira ainda foi possível laborar, mas só graças a dois geradores emprestados pela Embaixada dos Estados Unidos.

Washington, que tem uma base aérea no Quirguistão para incursões no Afeganistão - cujo fornecimento de combustível é feito por uma empresa de um genro de Askar Akaiev -, contribuiu com mais de 450.000 euros para a lisura do escrutínio, mal-grado críticas de Bishkek.

Sabendo que o poder constituído é acusado de "histerismo" pela oposição, o embaixador norte-americano Stephen Young justificou: "O país tem a oportunidade de reafirmar o seu papel de líder democrático na região e deve aproveitar a ajuda".

O parlamento cessante apontou o dedo a Washington por estar a tentar instigar no Quirguistão uma "Revolução de Veludo" semelhante à da Checoslováquia (1989), mensagem posteriormente repetida por Akaiev numa entrevista ao jornal russo Nezavisimaya Gazeta.

No início da semana, manifestantes cortaram a estrada de acesso às minas de ouro de Kutmor, exploradas pela empresa canadiana Centerra e consideradas umas das maiores indústrias nacionais.

Todo o universo estudantil - a taxa de literacia é de 97 por cento - está agrupado em torno do movimento Kel-Kel, obstinado em derrubar o poder. A idade mínima para votar é de 18 anos.

Mesmo estando a oposição pulverizada em cerca de 40 forças políticas, a verdade é que nutre a ilusão de vir a conquistar 15 a 20 assentos no hemiciclo, em palavras de Roza Otunbaieva, antiga embaixadora na Grã-Bretanha e Estados Unidos, enviada da ONU à Abkhazia (Geórgia, oeste) e chefe da diplomacia, neste momento co- presidente do movimento Ata-Iurt.

A Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) tem no terreno cerca de 170 observadores internacionais. O Quirguistão é membro da Parceria para a Paz da Aliança Atlântica (NATO).

A Rússia - que como os Estados Unidos tem uma base militar no naquele país, membro do conselho de segurança colectiva da Comunidade de Estados Independentes (CEI) - também está atenta ao processo.

O plebiscito de domingo é visto pelos analistas como um teste à democratização quirguize, tanto que Askar Akaiev já garantiu não se recandidatar a um terceiro mandato de cinco anos nas presidenciais de 30 de Outubro.

Na corrida para disputar o lugar de Askar Akaiev surge o primeiro-ministro cessante Kurmanbek Bakiev, um centrista que logrou fazer convergir os interesses dos comunistas e do sector mais radical dos liberais.

No Quirguistão, com uma área cerca de duas vezes e meia a de Portugal continental, uma maioria de 80 por cento dos seus cinco milhões de habitantes é muçulmana, havendo pouco mais de 10 por cento de cristãos, incluindo russos ortodoxos e "alemães do Volga". A taxa de desemprego é superior a sete por cento.

O rendimento médio mensal é da ordem dos 100 euros, apesar do país, muito montanhoso e florestado - menos de 10 por cento da terra é arável -, ser rico em recursos hidroeléctricos, petróleo, gás natural, carvão e ouro. A dívida externa está acima dos 1.500 milhões de euros.


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