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Racismo. Volkswagen retira publicidade que era "insulto a qualquer pessoa decente"
Ainda no rescaldo do escândalo do "dieselgate", a Volkswagen volta a estar no centro de uma polémica: desta vez envolve uma campanha promocional do novo Golf, com uma mensagem racista. Esta quarta-feira, a marca retirou o anúncio, admitindo ser racista e ofensivo, e dizendo que vai investigar como foi produzido e veiculado.
A promoção do novo modelo Golf da Volkswagen tem sido um processo atribulado. Depois de, no início desta semana, a marca ter suspendido as entregas por se ter detetado um problema de software, a Volkswagen vê-se envolvida em mais uma polémica com a campanha promocional da oitava geração do modelo automóvel.
Criticada e acusada de publicar um anúncio racista na página oficial do Instagram, a marca alemã viu-se obrigada a retirar a publicidade e a apresentar um pedido de desculpas formal, esta quarta-feira. O grupo económico garante que já está aberto um processo de investigação interna e que serão apuradas todas as responsabilidades.
No anúncio em questão vêem-se umas mãos grandes e de pele clara de uma mulher que parecem estar a empurrar e a afastar um homem negro de um novo Golf amarelo brilhante, estacionado na rua, sendo ainda o homem levado para um café chamado "Petit Colon" - um nome com conotações coloniais.
Embora a marca o tenha eliminado das páginas oficiais, o anúncio continua a circular na Internet.
A televisão alemã considerou, segundo a Reuters, que a mensagem era de imediato conotada com ideais racistas, uma vez que a mão podia ser interpretada como um gesto de "poder branco" e que as letras que aparecem no final - "Der Neue Golf", que significam "o novo Golf" - representavam uma ofensa racista em alemão, visto algumas letras aparecerem destacadas - "er", "ne" e "G", que podem formar a palavra "neger" que significa "negro".
Entretanto, Juergen Stackmann, membro do conselho de vendas e marketing da marca, e Elke Heitmueller, chefe de gestão de diversidade, já pediram desculpas pelo sucedido, nas redes sociais.
"Entendemos a indignação pública com isto. Porque também estamos horrorizados. Este vídeo é um insulto a todas as conquistas do movimento pelos direitos civis. É um insulto a todas as pessoas decentes", escreveram.
"Estamos cientes das origens históricas e da culpa da nossa empresa durante o regime nazi. É exatamente por isso que nos opomos a todas as formas de ódio, difamação e discriminação".
"Estamos cientes das origens históricas e da culpa da nossa empresa durante o regime nazi. É exatamente por isso que nos opomos a todas as formas de ódio, difamação e discriminação".
Recorde-se que esta marca automóvel alemã foi fundada sob ordens de Adolf Hitler com o objetivo de construir o "carro do povo" e, na altura, a Volkswagen empregava trabalhadores forçados para o esforço da guerra nazi.
Ich entschuldige mich aufrichtig als Einzelperson in meiner Funktion als Vorstandsmitglied bei Volkswagen Sales & Marketing. Hass, Rassismus und Diskriminierung haben bei Volkswagen keinen Platz! Ich werde in diesem Fall persönlich für volle Transparenz und Konsequenzen sorgen! pic.twitter.com/mlAIgrFQWs
— Jürgen Stackmann (@jstackmann) May 20, 2020
"Peço as minhas sinceras desculpas, enquanto membro do Conselho de Administração Vendas e Marketing da Volkswagen. Ódio, racismo e discriminação não têm lugar na Volkswagen! Neste caso, assegurarei pessoalmente total transparência e devidas consequências!", escreveu ainda Stackmann.
O grupo económico da Volkswagen tem visto a sua reputação manchada nos últimos cinco anos após ter admitido fraudes nos testes de emissões de diesel. Também esta semana a justiça alemã encerrou um processo judicial resultante da manipulação dos mercados financeiros, ligada ao escândalo conhecido como "dieselgate", contra o diretor da Volskwagen (VW), Herbert Diess, e o presidente do conselho de supervisão, Hans Dieter Pötsch, em troca do pagamento, pela empresa, de nove milhões de euros.
O escândalo rebentou em setembro de 2015, quando depois de acusações da agência de defesa do ambiente norte-americana (EPA, na sigla em inglês), a Volkswagen reconheceu ter manipulado 11 milhões de veículos com um programa informático capaz de os fazer aparecer menos poluentes em testes de laboratório do que na estrada.
O construtor alemão tem procurado desde então recuperar a imagem e reputação com uma aposta no carro elétrico.