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"Racista" e "porco sexista". Obama não poupava nas palavras para se referir a Trump
Muitas décadas depois, Barack Hussein Obama foi, na senda de JFK, o exemplo acabado do presidente descontraído, "boa onda", uma personagem conseguida e mais própria do cinema do que da política. Mas com a chegada de Donald Trump para o substituir nos deveres da Sala Oval, o verniz acabaria por não ser tão resistente como parecia.
Não existe propriamente o que se poderia chamar de dicionário lexical para a prática política, ficando o uso discriminado de certas expressões ao cuidado dos critérios pessoais de cada interveniente nessa arena. Uma marca dos ex-presidentes norte-americanos vinca a ideia de que os antecessores não são para atacar. Trata-se contudo de um manual de procedimentos que foi esgoto abaixo com a entrada em cena de Donald Trump.
Durante os quatro anos em que esteve na Casa Branca, o presidente republicano enxovalhou de todas as formas possíveis não apenas antigos candidatos à Presidência, como heróis de guerra e, inevitavelmente, o antecessor, Barak Obama.
Sabe-se agora, através do livro de Edward-Isaac Dovere, “Battle for the Soul: Inside the Democrats’ Campaigns to Defeat Donald Trump”, que Trump não ficou sem troco. Nos bastidores, Obama não terá poupado na linguagem mais ilustrativa para se referir ao inquilino menos ortodoxo que alguma vez pôs os pés na Casa Branca.
“Louco”, “porco racista”, “maldito lunático” e “filho da p**a corrupto” foram alguns dos epítetos que o antigo presidente Barack Obama tirou do bolso para se referir ao sucessor perante apoiantes e investidores, segundo Dovere.
O duelo entre os dois presidentes antecede a entrada de Trump na cena política, com dúvidas lançadas sobre a nacionalidade de Obama – por fim, em 2016, Trump reconheceria estar errado. Viria depois a adjectivação massiva do presidente bilionário, referindo-se ao antecessor como incompetente, uma crítica que teve variações para todos os gostos.
Neste ponto, como refere The Guardian, os sentimentos de Obama relativamente a Trump eram já conhecidos mas mantendo a discrição proverbial dos presidentes. Um pormenor que poderia ter também a ver, de acordo com Edward-Isaac Dovere, da maior tolerância de Barack Obama para com a hipótese de um Trump presidente quando na corrida estava também Ted Cruz.“Ele é louco”
No entanto, a partir de 2017, já com Donald Trump instalado na Casa Branca, Obama deixou de poupar nas palavras.
“Ele é louco”, terá largado Obama aos doadores da sua fundação, diz Dovere: “Mais frequentemente dizia: ‘Eu não pensei que seria assim tão mau’. Por vezes: ‘Não pensei que teríamos um porco racista e sexista [na Presidência]’. Dependendo do dia… ‘maldito lunático’ (‘that f***ing lunatic’)”.
De acordo com Dovere, a observação mais forte por parte do antigo presidente Obama terá surgido na altura em que Trump levava a cabo uma ronda de contactos com líderes de outros países, incluindo Vladimir Putin – já dirante a investigação a uma interferência russa nas eleições norte-americanas e a uma possível ligação entre Trump e Moscovo –, sem que qualquer acessor participasse nas conversas.
“Aquele corrupto filho da p**a”, terá desabafado Obama.
Edward-Isaac Dovere aproveita para fornecer outros exemplos que ajudam a perceber como o estilo dos protagonistas políticos pode ser flutuante, afastando-se da imagem polida que procuram cultivar perante o eleitorado. Para o caso, serve o relato relativamente a Jill Biden.
A mulher do agora presidente norte-americano, após o aceso debate de Joe Biden com Kamala Harris nas primárias, terá brindado a actual vice-presidente com um cumprimento no mínimo pouco simpático: “e se ela se fosse f**er?” (“[she should] go f**k herself”).