Rajoy, o incombustível
Mariano Rajoy foi dado como politicamente morto várias vezes ao longo da sua carreira. Político sem carisma, foi ungido por José María Aznar como o menor dos males para administrar a sua herança e uma mais do que certa vitória nas eleições legislativas de 14 de Março de 2004. Porém, os atentados de 11 de Março desse ano e a desastrosa gestão do seu rescaldo, levada a cabo pelo Governo de Aznar, inverteu em menos de três dias todas as previsões e possibilitou o regresso ao poder dos socialistas de Rodríguez Zapatero. Este revés obrigou Rajoy a permanecer na oposição durante sete anos, conseguindo resistir à contestação interna e externa mesmo depois de uma segunda derrota em 2008.
Qual a fórmula para esta incombustibilidade? Além da evidente ausência de concorrência (interna e externa), Mariano Rajoy resiste sobretudo pelas poucas – ou nulas – expectativas que gera. Os estudos de opinião assinalam-no como o presidente do Governo com taxas de rejeição mais altas da democracia, embora mantenha um eleitorado conservador muito fiel. A sua gestão na oposição e no executivo sempre se pautou por palavras vagas, decisões solitárias e uma enorme aversão ao risco. A recusa em submeter-se ao debate de investidura, depois das eleições de Dezembro, é um exemplo claro de uma estratégia exclusivamente assente na vitória pelo mutismo. Pela primeira vez, no actual quadro constitucional espanhol, um líder partidário recusou o convite do rei para ser o seu candidato perante o Parlamento.
Toda esta forma de fazer política teve implicações negativas para o próprio PP. Os casos de corrupção estão aí para o comprovar. Os negócios obscuros de diversos barões regionais populares não eram segredo para a generalidade dos espanhóis e manos ainda seriam para Rajoy. Comunidades autónomas como Madrid e Valência, durante mais de dez anos, foram exemplos claros de novo-riquismo conjugado com malversação do erário público. O poder exercido a partir governos regionais e de municípios era utilizado para favorecer as clientelas destes grandes bastiões do partido. São vários os indícios que levam a crer que Rajoy estava informado sobre o que se passava e nada fez. Só reagiu quando os inquéritos judiciais tornavam o silêncio insustentável.
A corrupção, a austeridade e a emergência de novas formações políticas (Ciudadanos e Podemos) impulsionaram grandes alterações no sistema político espanhol. Curiosamente, Mariano Rajoy, pese a todo o seu percurso, continua a ser o seu grande protagonista e poderá estar de pedra e cal. Ontem, pela primeira vez, decidiu ir a jogo num debate de investidura em que não tem a certeza antecipada da vitória, cedendo à pressão do Ciudadanos. Em paralelo (pasme-se), e com muita ironia, pode acabar por ser o presidente do Governo responsável pelo mais alargado pacote de medidas contra a corrupção da história de Espanha.
A tendência para a subversão/manipulação das regras, porém, não cessou e a data da votação parlamentar não foi escolhida ao acaso: conjugada com os prazos previstos na Constituição, obriga a que novas eleições, caso se celebrem, tenham lugar a 25 de Dezembro. A táctica é simples e pouco subtil: quem inviabilizar a ratificação do seu nome será responsabilizado por uma ida à urnas no Dia de Natal. Pelo meio, teremos ainda eleições autonómicas na Galiza e no País Basco. Caso os nacionalistas bascos precisem do PP no parlamento regional, Rajoy não hesitará em trocar esse apoio por algo semelhante nas Cortes de Madrid. Mesmo que isso contradiga a narrativa nacionalista espanhola que impôs no partido durante mais de doze anos.
Mas... Rajoy é isto mesmo. Beneficiando com a imaturidade do parlamentarismo espanhol e com um Partido Popular em que a fidelidade ao líder é sagrada (não por acaso, o também galego Fraga Iribarne, fundador do partido e padrinho político de Rajoy, foi ministro de Francisco Franco), segue o seu improvável caminho de manutenção no poder. Numa Europa em que as crises de liderança são evidentes, Madrid é só mais um ponto no mapa.