Ramadão em Gaza começa sem acordo de cessar-fogo

As esperanças internacionais de alcançar um cessar-fogo na Faixa de Gaza antes do mês do Ramadão foram frustradas no último domingo. Horas antes de os palestinianos e outros muçulmanos começarem o mês de jejum diurno, o Hamas repetiu as exigências de um cessar-fogo abrangente, mas Israel rejeitou.

RTP /
Um palestiniano deslocado prepara a sua tenda para o Ramadão, em Rafah, no sul da Faixa de Gaza Mohammed Salem - Reuters

O Egito, o Catar e os Estados Unidos estiveram a mediar uma trégua entre Israel e o Hamas. O cessar-fogo deveria acontecer nas vésperas do início do Ramadão, esta segunda-feira.

Caso tivesse havido um acordo de última hora, alguns reféns israelitas seriam libertados em troca de palestinianos detidos nas prisões israelitas.

Porém, as negociações estagnaram.
Braço de ferro
Neste domingo, um dos principais líderes políticos do Hamas, Ismail Haniyeh, veio anunciar, num discurso transmitido na televisão, que o Hamas queria um acordo que pusesse fim à guerra, garantisse a retirada das forças israelitas de Gaza, devolvesse os palestinianos deslocados às suas casas e fornecesse aos habitantes de Gaza todas as necessidades humanitárias.

Israel “quer recuperar os seus prisioneiros e depois retomar a guerra contra o nosso povo”, acentuou Haniyeh.

O líder do Hamas instou os mediadores a informarem o grupo islâmico acerca do momento em que Israel estiver de facto empenhado em acabar com a guerra, retirar-se de Gaza e permitir o regresso das pessoas deslocadas para o norte. Nessa altura, o Hamas estará pronto para mostrar flexibilidade na questão do intercâmbio dos reféns.

“O inimigo deve compreender que pagará um preço na questão da troca, mas a principal prioridade é proteger o nosso povo, acabar com as agressões e os massacres, devolver as pessoas deslocadas às suas casas e abrir um horizonte político para a nossa questão”, afirmou.

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, em entrevista ao Politico divulgada também no domingo, reportou que não estava eminente um acordo cessar-fogo. E deixou claro que gostaria “de ver outra libertação de reféns”. “Sem nova liberação, não haverá uma pausa nos combates”, vincou Netanyahu.

Israel acredita que as capacidades militares e de governo do Hamas em Gaza devem estar esgotadas antes de haver acordo e antes do fim da guerra.
Ramadão ensombrado pela guerra de Gaza
Os palestinianos prepararam-se para o celebrar o Ramadão a partir desta segunda-feira. Durante um mês, irão jejuar durante as horas de sol.

O clima de guerra entre Hamas e Israel, sem tréguas à vista, já impactou Jerusalém com medidas de segurança reforçadas pela polícia israelita.

Milhares de polícias foram mobilizados em torno das ruas estreitas da Cidade Velha de Jerusalém, onde dezenas de milhares de fiéis são esperados todos os dias no complexo da mesquita de Al Aqsa, um dos locais mais sagrados do Islão.

Em contraste com os anos anteriores, as decorações usuais ao redor da Cidade Velha não foram colocadas e houve o mesmo tom sombrio em cidades da Cisjordânia ocupada, onde cerca de 400 palestinianos foram mortos em confrontos com forças de segurança ou colonos judeus desde o início da guerra de Gaza.

"Decidimos este ano que a Cidade Velha de Jerusalém não será decorada por respeito ao sangue de nossos filhos e dos anciãos e mártires", disse Ammar Sider, líder comunitário na Cidade Velha, citado na Reuters.

A polícia israelita reportou que estava a trabalhar para garantir um Ramadão pacífico e tomou medidas extras para reprimir o que descreveram como informações provocativas e distorcidas nas redes sociais e prendeu 20 pessoas suspeitas de incitamento ao terrorismo.

"A polícia de Israel continuará a agir e permitir a observância das orações do Ramadão em segurança no Monte do Templo, mantendo a segurança e a proteção na área", anunciaram as autoridades em comunicado.
Em Rafah
Num mercado em Rafah, a cidade do sul de Gaza onde quase 1,5 milhões de pessoas procuraram refúgio, os palestinianos lamentaram no domingo a escassez de alimentos e a incerteza do tempo de guerra que paira sobre o mês sagrado para os muçulmanos.

Entretanto, vai ser construído um cais temporário em Gaza e criado um corredor marítimo até Chipre, para o enclave receber ajudas humanitárias, mas não atenua os receios dos descocados.

“É claro que este Ramadão é completamente diferente de todos os Ramadões anteriores”, declarou Bassel Yassin, engenheiro agrícola.

Um outro cidadão, Hassuna Tabib Hassnan, dentista deslocado da cidade de Gaza, no norte, apontou incertezas "sobre como o mês terminaria nas nossas casas, numa tenda, à beira-mar no norte ou no sul".

Hassnan acrescentou que, em vez de passar o Ramadão em casa, “está claro que o viveremos no meio de dor e opressão”.

c/agências
Tópicos
PUB