Reabilitação do antigo Liceu Salvador Correia, em Angola, custa 9 milhões de dólares

O antigo Liceu Salvador Correia, em Luanda, onde estudaram várias gerações de portugueses, pode recuperar a dignidade que o caracterizou no passado, caso se concretize o projecto para a sua reabilitação, orçado em nove milhões de dólares.

Agência LUSA /

A recuperação do `Salvador Correia`, nome ainda hoje familiar a muitos portugueses, é uma das prioridades da associação de antigos alunos, que pretende reunir esforços que permitam dar uma nova dignidade a um edifício que se encontra actualmente muito degradado.

"Um dos nossos projectos é tentar encontrar quem possa ajudar o Estado na recuperação do liceu", afirmou à Lusa o presidente da associação, Pedro Guerra Marques, adiantando já ter sido identificada uma empresa disposta a financiar metade do valor do projecto.

Um estudo realizado por uma empresa de construção civil no ano passado estimou o custo das obras em cerca de nove milhões de dólares (7,5 milhões de euros), admitindo que os trabalhos poderão demorar cerca de três anos.

A disponibilidade da empresa financiadora, o projecto de reabilitação e o orçamento foram enviados para o Governo Provincial de Luanda (GPL) no final do ano passado, juntamente com um pedido de autorização das obras, mas ainda não foi dada nenhuma resposta.

Pedro Guerra Marques assegurou que a associação vai "continuar a fazer pressão" para que se realizem as obras, salientando que "dói ver o estado em que se encontra o liceu".

"Sentimos que há receptividade por parte do GPL, mas sabemos que há problemas que é preciso resolver, como o destino a dar aos alunos (que actualmente frequentam o liceu)", assinalou.

Segundo o presidente da associação de antigos alunos, "chegou a ser colocada a possibilidade de se realizarem as obras por fases, mas concluiu-se que era impossível devido ao estado de degradação em que se encontra o edifício".

"Nós queremos recuperar o liceu do ponto de vista da infra- estrutura, mas mantendo a sua traça original e os azulejos do interior", frisou, admitindo que uma obra desta envergadura "é extremamente cara".

As obras previstas abrangem a reabilitação integral do edifício, a total remodelação da canalização de água, rede de esgotos e instalação eléctrica, a reconstrução das casas de banho, do ginásio e da área exterior ajardinada, a colocação de portas, janelas, vidros e portões e a pintura de todo o complexo.

O antigo `Salvador Correia`, baptizado com o nome de Mutu Ya Kevela desde 1975, tem actualmente a funcionar apenas metade das mais de quarenta salas de aula que possui, já que o primeiro andar está encerrado devido à infiltração da água das chuvas por falta de telhas em partes significativas do telhado.

Apesar do estado de degradação em que se encontra, o maior liceu de Luanda acolhe actualmente cerca de 5.000 alunos do quinto ao oitavo ano de escolaridade, mas chegou a ter cerca de 9.000 alunos no início da década de 90.

Pelas salas de aula do `Salvador Correia` passaram alunos como Agostinho Neto, que foi o primeiro presidente de Angola, e José Eduardo dos Santos, actual Chefe de Estado, entre milhares de angolanos e portugueses que ali fizeram os seus estudos ao longo de várias décadas.

A enorme quantidade de jovens que ficaram ligados a este liceu reflecte-se no facto de existirem actualmente associações de antigos alunos, não só em Angola, mas também em Portugal, no Brasil e em Macau.

No ano passado, um almoço-convívio realizou-se em simultâneo nos quatro países, tendo os antigos alunos estado em contacto através de videoconferência.

Para permitir uma maior aproximação entre os antigos alunos do `Salvador Correia`, as associações de Luanda e de Lisboa estão a desenvolver um projecto conjunto para a elaboração um "livro do liceu".

A intenção é reunir num único livro todas as gerações que frequentaram o liceu até à década de 90, mas o projecto poderá depois evoluir para a elaboração de um filme sobre o liceu onde todos estudaram.

As origens do `Salvador Correia` remontam a 25 de Abril de 1890, quando cerca de três dezenas de cidadãos se reuniram em casa de Caetano Vieira Dias e decidiram solicitar ao governo português a criação de um liceu nacional em Luanda.

A ideia era criar um estabelecimento de ensino na capital angolana que ministrasse os programas em vigor nas escolas em Portugal, o que permitiria aos alunos transitar deste liceu para as escolas portuguesas.

A criação desse liceu só veio, no entanto, a ser decidida a 19 de Fevereiro de 1919, quando o Conselho de Instrução Pública aprovou por maioria uma proposta nesse sentido apresentada por António Joaquim Tavares Ferro.

Inicialmente denominado Liceu de Luanda, a escola começou por funcionar num edifício na baixa da capital angolana, assumindo em 1924 a designação de Liceu Nacional Salvador Correia de Sá e Benevides, numa homenagem ao homem que reconquistou Luanda para a coroa portuguesa em 1648 depois da cidade ter sido ocupada pelos holandeses.

O actual edifício, situado no cimo de uma encosta que desce para o mar, começou a ser construído em Novembro de 1938, tendo a inauguração ocorrido a 5 de Julho de 1942.

Em 1975, ano da independência de Angola, foi rebaptizado com o nome actual de Liceu Mutu Ya Kevela, em homenagem ao soba do Bailundo que liderou uma revolta contra as autoridades portuguesas em 1902 no planalto central de Angola, mas a inscrição `Liceu Nacional Salvador Correia` continua bem visível no alto da entrada principal do edifício.


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