"Rebeldia democrática" em Taiwan e Hong Kong poderá influenciar o interior da China
Pequim, 05 dez (Lusa) - Democratas de Taiwan e Hong Kong estão a protagonizar um "movimento de rebeldia" face a Pequim que poderá vir a influenciar o sistema político da China Continental, diz um sinólogo ocidental radicado há duas décadas na região.
"A cultura política democrática está a fazer o seu caminho na periferia da China", afirmou Jean-Pierre Cabestan a propósito dos resultados das últimas eleições locais em Taiwan e do movimento Occupy Central, que desde o final de setembro agita Hong Kong.
Antigo diretor do Centro de Estudos Francês sobre a China Contemporânea, Jean-Pierre Cabestan viveu em Taiwan na década de 1990 e a seguir em Hong Kong, onde dirige hoje o Departamento de Estudos Internacionais e Governação da Hong Kong Baptist University.
Num encontro com jornalistas estrangeiros realizado esta semana em Pequim, Cabestan salientou que "a China periférica" esta a revelar-se "muito mais rebelde face ao poder central chinês", o que "aumenta a pressão sobre o sistema de partido único" e "questiona o futuro político da China".
Na China continental, o "papel dirigente" do Partido Comunista é "um princípio cardeal" e os seus líderes proclamam repetidamente que o país "nunca adotará a democracia ocidental" como sistema de governo
Segundo Jean-Pierre Cabestan, a informação sobre Taiwan e Hong Kong "é censurada" por Pequim, mas "as fronteiras são extremamente porosas" e a "cultura política democrática" acabará por influenciar a China Continental.
"O processo será muito longo, mas, a pouco e pouco, vai modificar as coisas", acrescentou.
Nas eleições locais de sábado passado em Taiwan, o Partido Nacionalista (KMT) perdeu mais de metade das autarquias que governava, num resultado diametralmente oposto ao do partido pró-independência, o Partido Democrático Progressista (DPP).
Ao contrário do KMT, o DPP não reconhece que "há apenas uma China no mundo" e que Taiwan - a ilha onde se refugiou o antigo governo chinês depois de o Partido Comunista ter tomado o poder no continente, em 1949 - é "parte da China".
Em Hong Kong, o movimento de contestação, animado nas ruas por estudantes nascidos ou criados já depois de o território ter passado para a administração chinesa, centra-se no modo de eleição do próximo chefe do governo local, em 2017.
O governo central concordou que a eleição seja por sufrágio direto, mas impôs que haja apenas "dois ou três candidatos" e que estes sejam aprovados por um Comité afeto a Pequim, o que para os contestatários, constitui "uma limitação à democracia".
Pequim defende a "reunificação pacífica" com Taiwan, segundo a mesma formula adotada em Hong Kong e Macau, ("um pais, dois sistemas"), que garante às respetivas populações liberdades de expressão e organização politica desconhecidas no resto do país.
O KMT rejeita aquela fórmula, alegando que Taiwan não é uma colonia, mas nos últimos seis anos estreitou as relações com o continente chinês, que entretanto se tornou o maior parceiro comercial da ilha.
Uma eventual vitória do DPP nas eleições presidenciais de 2016 "tornará as relações com Pequim mais difíceis", pensa Jean -Pierre Cabestan, "mas não repetirá as tensões" registadas no início do século XXI, quando aquele partido chegou pela primeira vez ao poder.
"Económica e humanamente, Taiwan está hoje mais ligada à China continental. O DPP é pragmático e sabe que Taiwan necessita de manter relações estáveis e lucrativas com o continente", afirma Cabestan.