Refugiada iraniana que partilhou foto viral não esperava tornar-se símbolo da "revolução" e receber ameaças de morte
Quando publicou uma imagem a acender um cigarro com uma foto em chamas do líder supremo do Irão, a iraniana Melika Barahimi, de 23 anos, refugiada no Canadá, não contava tornar-se viral e acabar a receber ameaças de morte.
"Queria que fosse partilhada entre o meu povo, porque quero que saibam que ainda sou um deles apesar de ter sido obrigada a imigrar depois de o regime me ter condenado a anos de prisão por criticar [o `ayatollah` Ali] Khamenei, mas agora estou preocupada que possam ameaçar a minha família", afirma Melika numa entrevista à Lusa realizada através do `chat` do X, antigo Twitter.
A imagem publicada na quinta-feira viralizou nas redes sociais e está a ser partilhada em todo o mundo como um ícone dos protestos que decorrem no Irão desde o dia 28 de dezembro, mas foi captada num parque de estacionamento de uma cidade dos arredores de Toronto, onde vive, como explicado numa verificação de factos da Lusa Verifica.
Apesar de estar a receber ameaças de morte, como também denunciou publicamente no X, a jovem pretende manter a foto e o vídeo que divulgou posteriormente, "para que o mundo saiba" o que se passa e que está solidária, embora lamente que haja quem pense que foi tirada no Irão.
"Nunca afirmei estar no Irão. Fiz a foto para mostrar que sou contra este regime do qual fugi em março de 2025, porque a minha vida estava em perigo porque fui condenada a pena de prisão durante muitos anos, mas ainda tenho lá a família", afirma Melika, que conta ter sido "presa primeira vez aos 17 anos, durante o sangrento mês de novembro de 2019".
"As forças do regime prenderam-me com um `taser` e bastão. Passei uma noite no centro de detenção sem que a minha família soubesse onde estava ou o que me tinha acontecido, mas a minha mãe descobriu onde o regime islâmico me mantinha refém e arranjou-me um advogado que conseguiu a minha libertação mediante a apresentação de um recibo de vencimento como fiança", explica. Depois disso passou a ficar sob vigilância do regime.
Mais tarde, "durante o movimento pela liberdade de expressão das mulheres", conta que participou num `talk show` no YouTube "como opositora ao uso obrigatório do `hijab`" e a partir daí passou a "receber chamadas suspeitas de números desconhecidos, com ameaças de morte ou de ferimentos graves."
Em 2024, a jovem foi novamente detida devido à sua atividade nas redes sociais. "Após a morte do presidente [ultra-conservador Ebrahim] Raisi [em maio de 2024] publiquei alguns comentários no Instagram, tal como muitos outros iranianos, e, como estava sob vigilância da República Islâmica, fui detida na minha própria casa em Isfahan [centro], alguns dias depois."
Melika Barahimi afirma que a detenção foi feita sem mandado e que foi "levada para interrogatório e sujeita a humilhações e abusos físicos severos", mas foi libertada após dois dias, sem explicação. "Para a minha libertação foi estipulada uma caução extremamente elevada e os meus pais foram considerados meus responsáveis ??legais", conta.
Decidiu então fugir para a Turquia, onde diz que conseguiu obter um visto de estudante para o Canadá, onde vive atualmente. "Após chegar soube que tinha sido condenada a muitos anos de prisão e pedi o estatuto de refugiada", explica.
Atualmente vê com esperança a vaga de protestos que decorrem no Irão. "Isto não é um protesto, é uma revolução. Imagine um ladrão invadir a sua casa, fazer-lhe a si e à sua família reféns, agredi-los, abusar de vocês e saquear os vossos bens. Nestas circunstâncias, pode até ser forçado a fugir da sua própria casa e, naturalmente, a única coisa que deseja é que este ladrão se afaste para que a paz regresse ao seu lar, não que ele ouça as suas queixas ou melhore um pouco o seu comportamento."
É isso que espera que aconteça no seu país. "Estou firmemente empenhada na remoção do regime islâmico do Irão e no regresso do país a tempos melhores. Quero que o Irão seja governado por qualquer sistema capaz de proporcionar democracia, liberdade e segurança à nação e ao seu povo."