Refugiados ucranianos denunciam abusos e xenofobia na Polónia

Mais de 1,5 milhões de ucranianos procuram refúgio na Polónia desde que a Rússia iniciou a invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022. Apesar do acolhimento, por parte dos polacos, no início do conflito no leste da Europa, o número de ataques a este grupo de refugiados de guerra tem aumentado no país, incluindo o discurso de ódio na Internet contra refugiados.

Inês Moreira Santos - RTP /
Violeta Santos Moura - Reuters

A população começou a manifestar-se e a acusar o Governo polaco de ser generoso demais com os refugiados ucranianos e, nos últimos dois anos, houve inclusive protestos na Polónia contra a abertura do mercado europeu aos cereais ucranianos.

De acordo com um estudo realizado em dezembro de 2024 pelo Mieroszewski Centre, sediado em Varsóvia, a simpatia pelos ucranianos está a diminuir na Polónia. Apenas 25 por cento dos inquiridos mantém uma opinião positiva sobre os refugiados ucranianos, 30 por cento tem uma opinião negativa e 41 dizem-se neutros nesta questão. Entre esta população inquirida, metade considerou que o apoio oferecido aos refugiados era “excessivo” e apenas cinco por cento o consideraram “insuficiente”.

Uma opinião comum, segundo o mesmo relatório, é que as expectativas destes refugiados de guerra em relação aos benefícios sociais e a salários “são muito altas”. E ainda há, entre a população local, quem afirme que os ucranianos na Polónia “se comportam com se fossem donos do lugar”, são barulhentos e desonestos.

Apesar de os polacos considerarem uma “atitude heroica” dos ucranianos perante a agressão russa e apoiarem os esforços para que a Ucrânia seja integrada na NATO e na União Europeia, o estudo revela que os problemas quotidianos, de relação diária entre populações, têm vindo cada vez mais à tona. A população ucraniana é vista no mercado de trabalho como trabalhadora e empreendedora, o que, segundo o inquérito, pode levar a que a população polaca receie a concorrência. Ambiente entre polacos e ucranianos mudou

No início da invasão russa, milhões de ucranianos – especialmente mulheres e crianças – fugiram para a Polónia, tendo sido recebidos com bastante apoio e simpatia polaca. Na altura, centenas, se não milhares, de polacos foram para as fronteiras com comida e bens essenciais e até abrigaram alguns refugiados.

Três anos depois e com a guerra na Ucrânia ainda em curso, Varsóvia continua a ser um aliado fiel de Kiev, mas internamente a relação entre polacos e ucranianos mudou.Em vésperas de eleições presidenciais na Polónia, agendada para 18 de maio, as manifestações contra o apoio do Governo polaco aos ucranianos têm aumentado e alguns candidatos tentam ganhar votos prometendo menos ajuda a estes refugiados.


“O humor da sociedade polaca mudou em relação aos refugiados de guerra ucranianos”
, disse à AFP Piotr Długosz, professor de sociologia na Universidade Jaguelónica, em Cracóvia, que realizou também estudos sobre as opiniões em relação aos ucranianos na Europa Central.

“Ao mesmo tempo, é preciso lembrar que ajudar refugiados após o início da guerra era um reflexo moral natural, que se deve ajudar o próximo em necessidade. Ainda mais porque os polacos se lembram dos crimes cometidos pelos russos contra os polacos durante e após as duas guerras mundiais”.

No sábado passado, milhares de pessoas manifestaram-se em Varsóvia “contra a imigração ilegal” e contra o Governo pró-europeu de Donald Tusk. Manifestantes de todo o país, convocados por organizações nacionalistas, transportavam bandeiras nacionais brancas e vermelhas e gritavam “isto é a Polónia” e “não à imigração”.

A Polónia que acolhe quase dois milhões de refugiados ucranianos e está a enfrentar, segundo Varsóvia, uma onda de migração orquestrada por Minsk e Moscovo.

A oposição nacionalista acusa ainda o Governo pró-europeu de Donald Tusk de ter “abdicado” das decisões sobre migrações a favor da Alemanha, permitindo que Berlim sobrecarregasse a Polónia com migrantes.

Em relatos à BBC, uma família ucraniana refugiada na Polónia denunciou os abusos. A filha de Svitlana adorava a escola polaca onde foi integrada quando imigraram para a Polónia.

“Ela gostou muito. Não havia bullying, contou à publicação britânica.

Mas o ambiente claramente mudou e, recentemente, a filha ouviu de um colega “volta para a Ucrânia”.

"No trabalho, muitas pessoas dizem que os ucranianos vêm para aqui e se comportam mal. E os meus amigos ucranianos dizem que querem voltar para casa porque os polacos não nos aceitam. É assustador morar aqui agora”.


São muitos os ucranianos, à semelhança desta testemunha, que relatam recentes experiências de abuso em transportes públicos, bullying nas escolas e discurso de ódio na Internet contra refugiados de guerra. Situação que a população ucraniana considera estar a agravar-se desde que começou a campanha eleitoral.
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