Regime chinês eleva Xi Jinping à liderança para conter "divórcio do povo"

Persuadir “o povo” a inverter a longa marcha para “o divórcio” face à nomenclatura é o primeiro objetivo assumido pelo novo secretário-geral do Partido Comunista Chinês, Xi Jinping. O homem do aparelho que dentro de quatro meses se tornará Presidente da República Popular da China apresentou-se hoje ao mundo a prometer um combate à corrupção que mina o edifício político do colosso asiático, assim como aos “formalismos” e à “burocracia”. À espera da tradução prática destes compromissos está uma nova classe média de 700 milhões de pessoas cada vez mais alheias ao léxico maoísta.

RTP /
O novo secretário-geral do PCC Xi Jinping à chegada a uma conferência de imprensa em Pequim, seguido de Li Keqiang, futuro primeiro-ministro Adrian Bradshaw, EPA

Houve um romper de tradições no culminar do 18.º Congresso do Partido Comunista Chinês. Para ilustrar a agenda de “limpeza” atribuída a Xi Jinping. O novo número um do edifício político totalitário que governa a China desde 1949 nada disse de laudatório sobre o seu antecessor, o ainda Presidente Hu Jintao. Falou do futuro. E do que classificou como “desafios sérios” e “problemas urgentes” a enfrentar.

Hu Jintao, que deixará a Presidência da República Popular em março de 2013, havia já lançado a plataforma para o discurso de consagração de Xi Jinping no relatório submetido aos trabalhos do Grande Salão do Povo. Nesse testamento político, a corrupção era encarada como um fator capaz de provocar, a prazo, “o colapso do partido” e do próprio Estado. O sucessor pronunciou-se no mesmo sentido.
Do Congresso que se prolongou por uma semana sobeja ainda a entrada do presidente da China Three Gorges, agora a maior acionista da EDP, para o Comité Central do Partido Comunista Chinês. Como suplente.

Cao Guangjing faz parte de uma lista de 171 nomes eleita na sessão de encerramento. A empresa liderada por este administrador de 48 anos venceu em dezembro o concurso internacional para a aquisição de 21,35 por cento das ações da EDP, pagando 2,7 mil milhões de euros.

“Com novas condições, o nosso partido enfrenta muitos desafios sérios. Há ainda muitos problemas urgentes dentro do partido que têm de ser resolvidos, em particular a corrupção, o divórcio do povo, formalismos e burocracia”, declarou o novo secretário-geral e presidente da Comissão Militar Central do PCC.

No mesmo discurso, mostrado em vários ecrãs espalhados por Pequim, Xi Jinping exortaria também “todo o partido” a posicionar-se “em alerta total”. Uma postura, instou, que implicará “honra” por parte dos militantes. Que deverão“melhorar o comportamento” e preservar um “contacto estreito com o povo”.

“O nosso povo ama ardentemente a vida. Deseja melhor educação, empregos estáveis, melhores rendimentos, mais segurança social, melhores tratamentos médicos e condições de habitação e um melhor meio ambiente”, desfiou o recém-empossado secretário-geral, já depois de se comprometer com a “política de reforma e abertura” em desenvolvimento há quatro décadas. A China, quis garantir Jinping, vai “libertar e desenvolver as forças produtivas”.

Num recado aos média internacionais, Xi Jinping sustentou que, “tal como a China precisa de saber mais sobre o mundo, também o mundo precisa de conhecer melhor a China”.
“A clique de Jiang Zemin”

Com 59 anos, Xi Jinping é o primeiro alto dirigente do PCC nascido após o advento do regime pela mão de Mao Tsé-Tung. A sua personalidade é uma incógnita. Que o sorriso vago e uma aparência sem mácula não ajudam a desvendar.

O percurso do novo líder é o de uma clássica figura do aparelho entrincheirada entre a dita “aristocracia vermelha” do regime de partido único. De dirigente provincial passou a dirigente máximo em Xangai e daí para a vice-presidência do país em 2008. Sabe-se também que o seu clã é próspero, apesar dos esforços da censura chinesa para manter este dado debaixo de um véu – o último número conhecido aponta para uma fortuna de 376 milhões de dólares, assinalava esta quinta-feira a agência France Presse.



Ao lado de Xi Jinping no Comité Permanente do Politburo, a chamada “liderança central”, estão Li Keqiang, que em março sucederá a Wen Jiabao como primeiro-ministro, Zhang Dejiang, Yu Zhengsheng, Liu Yunshan, Wang Qishan e Zhang Gaoli. Sete elementos escolhidos por um gabinete político de 25 membros, entre os quais duas mulheres, por sua vez indigitados pelo Comité Central. Os 205 membros deste órgão foram eleitos na quarta-feira pelo Congresso.

Auscultado pela France Presse, Jean-Pierre Cabestan, um especialista em questões chinesas a viver em Hong-Kong, mostrou-se convencido de que a equipa agora escolhida não estará pronta para “introduzir reformas muito importantes, salvo, talvez, em matéria económica, porque há uma necessidade”. “No plano político são muito conservadores. É um pouco a clique de Jiang Zemin. Hu Jintao perde muita influência”, avaliou.

No plano externo, não é também previsível qualquer mudança súbita de circunstâncias. A China de Xi Jinping deverá continuar a disputar com os Estados Unidos o cume da economia mundial. E a exercer pressão sobre a União Europeia para que encontre uma forma de pôr cobro ao terramoto das dívidas soberanas. É no Velho Continente que os chineses encontram o principal mercado para as suas exportações.
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