Regionais em França: quanto vale a vitória da Frente Nacional?

A Frente Nacional venceu a primeira volta das regionais em França. O resultado ainda não tem efeitos práticos, mas é provável que a família Le Pen passe a presidir a regiões na próxima semana. O resultado poderia afigurar-se chocante, se não fosse o fruto de um trajeto iniciado há anos.

Christopher Marques - RTP /
A número um da Frente Nacional, Marine Le Pen, e a sobrinha, Marion Maréchal-Le Pen Jean Paul Pelissier - Reuters

Passo a passo. Eleição a eleição. A família Le Pen aproxima-se do Eliseu. Contados os votos, a Frente Nacional foi o partido mais votado na primeira volta das regionais francesas. O resultado ainda não se traduz em mandatos, mas poderá mesmo converter-se na próxima semana.

Nesta primeira ida às urnas, a Frente Nacional obteve 27,96 por cento dos votos. Os Republicanos de Nicolas Sarkozy, apoiados pelos centristas do MoDem e UDI, ficaram em segundo lugar com 26,89 por cento dos votos. O PS chega em terceiro com 23,33 por cento dos sufrágios. Depois das europeias e das departamentais, o cenário é agora mais grave.

Nas eleições departamentais, Marine Le Pen tinha já obtido 25 por cento dos votos à primeira volta e 22 por cento na segunda volta, chegando em terceiro lugar. No entanto, com um sistema eleitoral que é desfavorável às forças extremistas e a quem não faz alianças, não conseguiu conquistar um único departamento. Agora, o caso é outro.

Em primeiro lugar, porque vence as eleições com 27,96 por cento dos votos. Repetindo o que aconteceu nas eleições europeias de 2014, o movimento pode voltar a fazer uso do chavão “premier parti de France”. Mas, em 2004, o resultado também teve poucos efeitos práticos: elegeram 24 eurodeputados, num universo de 74 representantes de França que, por sua vez, fazem parte de um Parlamento com 751 deputados.

Agora, o partido está bem colocado para liderar algumas regiões francesas. A Frente Nacional foi o partido mais votado na primeira volta em seis regiões. Em dois casos, a vitória está muito próxima. Num terceiro, dependerá da atitude do PS. Tudo se decide na segunda volta de 13 de dezembro.
Marine a norte
A França arrisca-se a ter duas regiões governadas pela Frente Nacional. Ou melhor, duas regiões administradas pela família Le Pen. Os locais onde a vitória é mais provável são precisamente aqueles em que a família é candidata: Marine Le Pen em Nord-Pas-de-Calais-Picardie e Marion Maréchal-Le Pen em Provence-Alpes-Côte d’Azur.

A norte, Marine Le Pen obteve 40,64 por cento dos votos, tendo ficado à frente do republicano Xavier Bertrand (24,96 por cento) e do socialista Pierre de Saintignon (18,12 por cento). O candidato socialista já anunciou que abdica da passagem à segunda volta, que será assim decidida entre Bertrand e Le Pen.

Mesmo com um único adversário, a vitória de Le Pen é possível, até porque não é certo que o candidato de direita consiga absorver todos os votos de esquerda. No fim de novembro, uma sondagem do instituto BVA atribuía a vitória a Le Pen na segunda volta, mesmo com um só adversário.
Marion a sul
A sul, Marion Maréchal-Le Pen poderá liderar os destinos da região Provence Alpes-Côte d’Azur. Marion tornou-se já um rosto conhecido: é a mais jovem deputada do Parlamento francês, sobrinha de Marine Le Pen e neta do patriarca Jean-Marie Le Pen.

Na primeira volta, Marion obteve 40,55 por cento dos votos. A direita de Nicolas Sarkozy mereceu o sufrágio de 26,48 por cento dos eleitores, enquanto o PS de François Hollande se ficou pelos 16,59 por cento.

A apenas dez por cento de obter a maioria, este é um cenário que se apresenta como plausível. O PS já anunciou que vai abdicar da candidatura, numa tentativa de evitar uma fragmentação de votos entre socialistas e republicanos.

Com apenas duas listas na segunda volta, a Frente Nacional precisará mesmo de conseguir 50 por cento dos votos. Apesar da frente republicana montada, não é certo que tal não aconteça, com as sondagens a apontar para uma situação de empate técnico.Seguir ou desistir?
O cenário é também conturbado na grande região do leste francês, que inclui a Alsace, Lorraine e Champagne-Ardennes. O vice-presidente da Frente Nacional, Florian Philippot, obteve 36,06 por cento dos votos. Os homens de Nicolas Sarkozy conseguiram 25,83 por cento dos votos e o PS mereceu os sufrágios de 16,11 por cento dos eleitores.

No entanto, o candidato do Partido Socialista recusa abandonar a corrida, violando a diretiva do partido. Caso o candidato não desista, a vitória da Frente Nacional é altamente provável.

As restantes regiões em que a Frente Nacional chegou em primeiro lugar são Centre-Val de Loire, Bourgogne-Franche-Comté e Languedoc-Roussillon-Midi-Pyrénées mas com resultados menos importantes. O partido de Nicolas Sarkozy venceu em três regiões da metrópole, nomeadamente Île-de-France, onde se inclui a capital Paris. O PS venceu em duas regiões.
O que será uma região do FN?

A Frente Nacional está bem posicionada para presidir ao conselho regional de duas regiões. A cumprir-se este destino, o partido de Marine Le Pen teria uma ação preponderante no destino de mais de 11 milhões de franceses.

O partido ficaria com responsabilidades governativas que nunca teve, mas, em termos práticos, serão poucas as medidas tradicionais da Frente Nacional que poderiam ser tomadas.

As regiões aglomeram departamentos franceses e intervêm em áreas como o desenvolvimento económico, ordenamento do território, ensino superior e gestão dos liceus e transportes. Os domínios da segurança e da imigração, por exemplo, não são competências regionais.

Em termos económicos, a Frente Nacional poderá tomar algumas medidas, nomeadamente reduzindo impostos, mas sem ser de esperar um grande impacto. Não só porque não há grande folga orçamental, mas também porque não são muitas as decisões que poderiam tomar.

De acordo com The Huffington Post, menos de 50 por cento do orçamento das regiões é originário de impostos próprios. Destes, mais de 20 por cento provêm de taxas definidas pela Administração Central. Algumas mudanças poderão no entanto ser tomadas na seleção de associações subsidiadas ou na redução de postos de trabalho na Administração Central, por exemplo.

Agora, quanto a bandeiras da Frente Nacional, pouco poderá ser feito. O facto de presidir a um Conselho Regional, por exemplo, não permitirá à extrema-direita regressar ao franco ou impedir a entrada de migrantes.
“Como chegámos até aqui?”
O resultado não deixa, no entanto, de merecer preocupação. Afinal, um partido de extrema-direita arrisca-se a merecer o voto de metade dos eleitores de determinadas regiões. O primeiro-ministro Manuel Valls apelida esta eventualidade de "drama".

O ex-primeiro-ministro François Fillon avisa que se criarão regiões onde ninguém quererá investir. A imprensa está chocada, apesar dos resultados irem ao encontro das expectativas deixadas pelas sondagens. “Como chegámos até aqui?”, questionava-se esta manhã no editorial de Le Monde.

“Como é que um partido reacionário e xenófobo, alimentado, digam o que disserem, por uma ideologia contrária aos valores da República e operado por propostas que têm tanto de demagógicas como de perigosas, pode aparecer como recurso de mais de um em cada quatro eleitores?”, pergunta-se a redação do diário.

Procuram-se culpados para esta ascensão da extrema-direita. Le Monde aponta o dedo um pouco a todos: aos partidos dos últimos anos, ao terrorismo, à incapacidade de Hollande em recuperar a economia francesa, aos dez anos de Governo de direita que antecederam o executivo socialista.

O resultado une até a imprensa mais diversificada. Os diários L'Humanité e Le Figaro, o primeiro órgão oficial do Partido Comunista, o segundo mais associado a partidos de direita, chegaram às bancas com a mesma expressão: Le Choc.
Frente Republicana?
Uma realidade ainda assim insuficiente para unir republicanos e socialistas. O PS deu ordens para que os candidatos desistam a favor da direita em todas as regiões onde ficaram em terceiro lugar, mas nem todos se mostram dispostos a seguir a diretiva. O partido de Nicolas Sarkozy está contra desistências a favor do PS.

Em 2002, a passagem de Le Pen à segunda volta das presidenciais apresentava-se como um acaso sem futuro. Desde então, somam-se os votos, acumulam-se as vitórias. Até se pode culpar os tempos, a crise e o terrorismo, mas a Frente Nacional tem conquistado terreno com um sistema que lhe é fortemente desfavorável.

Com um sistema eleitoral proporcional, semelhante ao português, a extrema-direita teria um peso inegável na política francesa.
Tópicos
PUB