Rei Fahd foi enterrado num túmulo sem identificação

O rei Fahd da Arábia Saudita, um dos mais ricos monarcas do mundo, foi sepultado em Riade num túmulo sem identificação, na tradição austera do islamismo praticada no reino.

Agência LUSA /
Imagem de arquivo do rei Fahd da Arábia Saudita EPA

A família real saudita e líderes muçulmanos provenientes do mundo inteiro juntaram-se na grande mesquita da capital para a cerimónia fúnebre do chefe da Casa de Saud, falecido segunda-feira aos 81 anos, depois de uma década mentalmente diminuído devido a um derrame cerebral.

O corpo do rei, envolto numa fina tela castanha, foi acompanhado até ao cemitério de Al-Ud pelos homens da casa real de Saud, numa estranhamente colorida congregação, devido às sombrinhas multicolores usadas para protecção do sol - a temperatura chegou aos 44 graus hoje na capital saudita.

Longe da sumptuosidade de alguns campos fúnebres católicos, Al- Ud é uma pequena área de deserto com diminutos arbustos secos, os pequenos montes de terra das sepulturas e reduzidas pedras gravadas para identificação.

O "wahabismo", interpretação fundamentalista do Alcorão patrocinada e financiada pela monarquia saudita e exportada para o mundo inteiro, requer determinadas regras de decoro na morte, mesmo que tal não corresponda à sumptuosidade com que viveu e vive um regime monárquico quase feudal enriquecido pelos lucros do petróleo.

"A sua sepultura será igual à de todos os muçulmanos. Não há diferenças entre ele e os outros muçulmanos", disse o Grande Mufti da Arábia Saudita, Sheik Abdullah Azziz bin Abdullah al-Sheikh, que conduziu as cerimónias fúnebres.

Ao lado de líderes do mundo árabe como o Presidente egípcio, Hosni Mubarak, o líder da Autoridade Nacional Palestiniana, Mahmud Abbas, ou o rei Abdullah da Jordânia (que decretou 40 dias de luto no seu país), estava o Presidente francês, Jacques Chirac, e o príncipe Carlos de Inglaterra.

George W. Bush não esteve em Riade, no entanto, enviou uma delegação de alto nível chefiada pelo vice-presidente Dick Cheney, numa demonstração de apreço pelo monarca que foi o principal aliado dos Estados Unidos no mundo árabe durante duas décadas.

As cerimónias fúnebres decorreram sob fortes medidas de segurança, com as ruas à volta da mesquita do imã Turki bem Abdullah cortadas pela polícia, com cães farejadores e aparelhos de raio-x mobilizados para evitar qualquer possível ataque terrorista.

No entanto, tudo decorreu sem qualquer alarme de segurança, tal como a sucessão de rei Fahd. O seu meio-irmão, Abdullah, ascendeu ao trono num clima pacífico na Casa de Saud, sinal de que a família real saudita sabe que, nestes tempos difíceis, é fundamental mostrar estabilidade para bem do regime.

Acossada nos últimos dois anos por ataques terroristas dos extremistas islâmicos que ajudou a criar, com o financiamento das escolas corânicas "wahabistas" que predicaram durante anos o radicalismo e o conservadorismo na interpretação das palavras do Profeta, defendendo o ódio aos infiéis ocidentais, a Arábia Saudita encontra-se actualmente num impasse.

O rei Abdullah herda um país que já governava em nome do seu meio-irmão incapacitado, mas o reinado poderá ser apenas de transição, tendo em conta o facto de ter 82 anos.

Na morte de Fahd, guardião das duas mesquitas (Meca e Medina), o Ocidente voltou a esquecer o currículo negativo de um regime ultra- conservador, pouco preocupado com os direitos humanos, que sempre conseguiu iludir as críticas através da ajuda do fiel aliado norte- americano.

Quase todos preferiram manter o ênfase na capacidade de estadista do monarca falecido: "O rei Fahd era um homem de grande visão e liderança que inspirou os seus concidadãos durante um quarto de século como rei e muitos (anos) mais antes", referiu o primeiro- ministro britânico, Tony Blair.

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