Reino Unido autoriza criação de embriões híbridos de humanos e animais para fins terapêuticos

Londres, 17 Jan (Lusa) - O órgão que regula as questões da bioética no Reino Unido anunciou hoje ter dado autorização à criação de embriões híbridos de animais e seres humanos, destinado ao desenvolvimento de terapias para doenças neurodegenarativas.

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Após vários meses de consultas, a britânica Autoridade de Fertilização e Embriologia Humana (HFEA) concedeu autorização a dois grupos de cientistas para aplicar esta prática que, segundo os investigadores, pode ajudar a desenvolver tratamentos para curar doenças neurodegenarativas actualmente incuráveis, como o Alzheimer e Parkinson.

Os investigadores pretendem criar embriões híbridos inserindo células humanas em óvulos de vacas mortas, com o objectivo de conseguir extrair valiosas células embrionárias, e com elas combater doenças neurodegenerativas, assim como graves lesões da espinal-medula.

A criação de embriões híbridos, que combinam ADN de animais e seres humanos, já tinha sido autorizada, na prática, em Setembro passado pelo mesmo organismo, porém a aprovação efectiva desta medida não tinha sido anunciada até agora.

Assim, investigadores britânicos do King`s College de Londres e da Universidade de Newcastle - que tinham solicitado as respectivas licenças em Novembro de 2006 - foram autorizados a injectar DNA humano em óvulos de vacas, de forma a criar embriões híbridos que são 99,9 por cento humanos.

Segundo o órgão regulador britânico, os pedidos recebidos por essas duas entidades "satisfazem todos os requerimentos da Lei, pelo que foram concedidas a ambos os centros universitários "licenças de investigação válidas por um ano".

O investigador Lyle Armstrong, da equipa da Universidade de Newcastle, congratulou-se com a decisão, sublinhando que os embriões híbridos apenas serão utilizados como "uma ferramenta científica" para tratar doenças humanas.

De acordo com os cientistas, a utilização de óvulos de animais resolve o problema da escassez de óvulos humanos, lembrando que os primeiros representam uma fonte quase inesgotável de células estaminais.

No entanto, a actual legislação no Reino Unido prevê a destruição destes embriões depois de 14 semanas e proíbe que estes sejam utilizados directamente para tratamento e implantados, para evitar a criação de organismos híbridos.

Antes de ter anunciado a sua decisão sobre esta matéria, o HFEA estudou o caso durante três meses, com pesquisas de opinião, consultas e debates públicos.

Segundo a autoridade que regula as questões da bioética no Reino Unido, a maioria dos especialistas consultados mostraram-se "maioritariamente favoráveis à criação de embriões híbridos citoplásmicos", nos quais uma célula humana é inserida num óvulo animal previamente esvaziado.

Também as sondagens de opinião efectuadas no Reino Unido indicaram que 61 por cento da opinião pública britânica estão a favor da criação de embriões mistos de animais e humanos, enquanto que 25 se opunha a esta prática.

Esta temática tem levado a fortes protestos por parte de associações religiosas e outras que se opõem a este tipo de investigação, afirmando que estas práticas acabam com a distinção entre seres humanos e animais e que a decisão do organismo regulador representa "um duro golpe para a dignidade humana no Reino Unido".


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