Reino Unido poderá manter condições especiais anteriores ao Brexit caso volte a aderir à UE

Reino Unido poderá manter condições especiais anteriores ao Brexit caso volte a aderir à UE

Michel Barnier falou em entrevista ao diário britânico The Guardian na semana que antecede o décimo aniversário do referendo sobre o Brexit.

Joana Raposo Santos - RTP /
Foto: Dylan Martinez - Reuters

O antigo negociador-chefe da União Europeia para o Brexit, Michel Barnier, afirmou que o Reino Unido poderia recuperar as suas condições especiais caso voltasse a aderir à UE e sustentou que, a cada dia que passa, fica mais claro para o povo britânico que teria mais força se estivesse na Europa.

“O ADN da UE é a solidariedade, ou seja, o facto de os países mais desenvolvidos ajudarem os outros. Veremos se o Reino Unido decide solicitar a adesão à UE. Será uma escolha e estará aberta a negociação. Estarei disponível nessa altura para prestar aconselhamento gratuito”, declarou.

Ao Guardian, o antigo negociador disse ainda não ver qualquer obstáculo a que o Reino Unido mantivesse a libra esterlina e permanecesse fora do espaço Schengen, onde não é necessário passaporte para viajar, caso o país voltasse a aderir à UE.

Segundo as sondagens, o apoio demonstrado pelos britânicos ao regresso à UE é ainda mais forte quando essas antigas condições estão em cima da mesa.

Estou a falar de Schengen, estou a falar da moeda única: há outros Estados-Membros que não fazem parte destas estruturas. É perfeitamente possível ter isenções nestes domínios”, vincou Barnier.

Cinco dos 13 países que aderiram à UE desde 2004 ainda não aderiram à moeda única. Os tratados não especificam um calendário concreto para a adesão à zona euro.

Quanto ao espaço Schengen, a Irlanda é o único Estado-Membro da UE com uma cláusula de exclusão oficial de circulação sem passaporte. Problemas do Reino Unido “são mais difíceis devido ao Brexit”
Barnier - que estará em Londres na terça-feira para a conferência “O Reino Unido numa Europa em Mudança” - liderou quatro anos de negociações sobre o Brexit, que culminaram num acordo comercial em dezembro de 2020.

Nesta entrevista ao Guardian, disse continuar convencido de que o Reino Unido fez a escolha errada ao sair da UE e que as provas disso se tornam mais evidentes “a cada dia que passa”.

Referindo-se ao lento crescimento económico do Reino Unido e ao debate sobre a imigração, Barnier afirmou que “não seria justo dizer que os problemas atuais se devem ao Brexit, mas de certeza que todos esses problemas são mais difíceis devido ao Brexit”.

Barnier vincou ainda que as esperanças do Governo britânico de construir uma relação económica mais estreita com a Europa fora da UE continuam a ser problemáticas devido à rejeição da livre circulação de pessoas.

Questionado sobre se acreditava que o Reino Unido voltaria a integrar o bloco ainda durante a sua vida, Barnier respondeu que não sabe quanto tempo tem de vida, mas que “dia após dia o povo britânico irá perceber, no mundo atual, que este é mais perigoso, mais frágil, mais instável, e que não podemos ficar sozinhos”.

“Isso é verdade para a França, é verdade para a Alemanha, é verdade para todos. A cada dia que passa, isso ficará mais claro”, insistiu.

De acordo com uma sondagem recente realizada pela YouGov, 57 por cento dos britânicos consideram que o Reino Unido errou ao votar a favor da saída da UE, incluindo 23 por cento dos eleitores que votaram a favor da saída.
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