Relato verídico "A Linguagem dos Ossos" publicado em Portugal em Julho
A dimensão dos genocídios passa pela forma como as vítimas são mortas revela "A Linguagem dos Ossos", um relato de Clea Koff, antropóloga que visitou cenários onde foram cometidos alguns dos piores crimes contra a Humanidade.
O livro, que será lançado pela editora Quetzal a 19 de Julho, acompanha o trabalho da antropóloga forense Clea Koff na recuperação da identidade de despojos humanos anónimos na sequência de conflitos que envolveram massacres.
A autora do relato analisou cadáveres no Ruanda, na Bósnia, na Croácia e no Kosovo, desenterrando e reunindo provas que seriam mais tarde usadas na condenação dos responsáveis por crimes de genocídio e contra a Humanidade.
Fundamentalmente, o trabalho desenvolvido por Clea centra-se na resposta a duas questões - quem eram as vítimas e como foram mortas - e permite comprovar o crime e devolver os corpos resgatados às respectivas famílias.
Ao fazer "falar os mortos" e ao reunir as histórias dos vivos em torno dos cadáveres, a obra atribui um novo sentido a conflitos e guerras que marcaram a História internacional nos anos 90.
Em 1996, Clea Koff tinha apenas 23 anos quando integrou a equipa de 16 cientistas destacada pelo Tribunal Penal Internacional para se deslocar ao Ruanda e aí reunir provas físicas do genocídio ocorrido dois anos antes, quando em apenas três meses foram massacrados 800.000 tutsis.
Antes desta experiência, Koff era uma jovem recém- licenciada que estudava esqueletos pré-históricos em Berkeley, na Califórnia, mas os quatro anos a investigar no Ruanda transformaram-na numa dorida veterana.
Em "A Linguagem dos Ossos" a autora recorda a exumação de 500 corpos numa vala comum em Kibuye (Ruanda) ou a descoberta das vítimas do massacre de Srebrenica (Bósnia), cujos pulsos haviam sido atados com arame farpado.
Noutro episódio descrito, a antropóloga desenterra o corpo de um rapaz sob o olhar silencioso do avô no sudoeste do Kosovo, tentando sempre que a observação científica exigida a uma profissional não seja afectada pela empatia humana que é impossível não sentir perante as situações.
Na obra, Clea Koff conta o que viu e as condições em que trabalhou, queixando-se inclusivamente de burocracia por parte das Nações Unidas, mas também refere o choque dos sobreviventes perante algumas descobertas.
Informando ainda sobre quem foi a tribunal com base nas provas que reuniu e em que medida todo o percurso de investigação dos genocídios a afectou, Koff deixa uma nota de esperança no poder da verdade e denota confiança na realização da justiça.
"A Linguagem dos Ossos", obra de estreia da autora, está publicado na Alemanha, Austrália, Holanda, Espanha, Canadá, Reino Unido, Estados Unidos, França, Dinamarca, Noruega e Itália e tem arrebatado várias distinções desde 2004, ano da edição original.
Além do Prémio Livros e Direitos do Homem 2005, atribuído pela cidade francesa de Nancy, e o galardão Editor`s Pick, da Foreign Policy Association, a obra foi escolhida como livro do ano em 2004 por críticos de órgãos de comunicação como o Times Literary Supplement ou The Guardian.
Clea Koff nasceu em Inglaterra em 1972, filha de mãe tanzaniana e pai americano, passou a infância em Inglaterra, no Quénia, na Tanzânia, na Somália e nos Estados Unidos e em 1996 foi a mais jovem a integrar a equipa no Ruanda.
Participou em sete missões das ONU no Ruanda e na antiga Jugoslávia, tendo sido responsável adjunta de Antropologia na morgue do Tribunal no Kosovo, em 2000.