Relatório revela que mais de 1700 ativistas ambientais foram mortos na última década

Um novo relatório da Global Witness vem trazer à luz do dia uma nova realidade sobre os ativistas ambientais e a perseguição de que são alvo. A organização não-governamental revelou que estes ativistas são mortos a cada dois dias, vítimas de assassinos contratados e grupos de crime organizado.

RTP /
Protestos contra as alterações climáticas na Indonésia, em Jacarta Reuters

Este é um relatório que é publicado todos os anos, desde 2012, e revela os números de homicídios de ativistas ambientais. Brasil, Colômbia, Filipinas, México e Honduras são os países onde estas pessoas são mortas com mais frequência.

O mote para o relatório foi a morte de Chut Wutty, um ambientalista do Cambodja que trabalhava com o diretor da Global Witness, Mike Davis. Na altura, os dois investigavam o corte ilegal de árvores. Os relatórios mostraram até agora que 2020 foi o pior ano, com um número de homicídios recorde de 227 mortes, isto, apesar de haver uma pandemia.

“Wutty motivou-nos a confrontar várias questões. Qual era o cenário global, quais eram as implicações destes ataques e que podia ser feito para preveni-los?”, escreveu Davis no relatório.

Os homicídios atingiram países de menores rendimentos e as comunidades indígenas, com 39 por cento das vítimas a serem parte destes grupos. As indústrias mineira e de extração, de corte de árvores e o agronegócio são as que estão mais relacionadas com os homicídios. O autor do relatório disse que os números estão subestimados e não representam a escala real do problema.

Em 2021 foram assassinadas 200 pessoas, oito delas eram guardas florestais do parque nacional de Virunga, na República Democrática do Congo, um local que agora lida também com a ameaça da extração de gás e petróleo. Pequenos agricultores no Quénia e na Colômbia também foram mortos no ano anterior.

Este ano, o caso de Dom Philips foi altamente noticiado nos meios de comunicação mundiais. Juntamente com Bruno Pereira, um especialista em tribos incontactáveis, os dois foram mortos na Amazónia depois de desaparecerem. Philips estava a escrever um livro sobre desenvolvimento sustentável e Pereira estava a ajudá-lo com entrevistas. A investigação sobre o que aconteceu continua.

“É importante mostrar estas vítimas como as pessoas reais que são. É fácil para mim. Sempre estive rodeado de pessoas que defendiam as terras e queriam proteger o ambiente, e eu sou uma delas”, explicou a ambientalista indiana Vandana Shiva.

“Não estamos a viver apenas uma emergência climática. Estamos na pegada da sexta onda de extinção de massa e estas pessoas são algumas das que estão a tentar impedi-la. Eles não merecem apenas proteção por razões morais. O futuro das nossas espécies, do nosso planeta, depende disto”, continuou Shiva.

Apesar dos números, o relatório da Global Witness mostra que tem havido algumas vitórias para os ambientalistas. Na África do Sul, ativistas pertencentes a comunidades indígenas da costa sul ganharam uma ação legal contra a Shell, forçando a empresa petrolífera a parar a exploração de petróleo em locais onde se dá o nascimento e crescimento de baleias, tendo a decisão sido confirmada este mês”.

Na Indonésia, uma comunidade da Ilha de Sangihe ganhou um processo contra uma empresa canadiana que planeava explorar uma mina de ouro na ilha.

“Apesar de os números de homicídios continuarem altos, uma coisa que retirei desta investigação é que têm existido algumas vitorias significativas para ativistas do ambiente nos últimos anos, incluindo triunfos contra grandes multinacionais”, explicou a autora do relatório Ali Hines.

Mais de dois terços dos homicídios de ambientalistas, entre 2012 e 2021, registaram-se na América Latina, com 342 pessoas a serem mortas no Brasil e 322 na Colômbia.

“Este é um problema global mas acontece quase exclusivamente no hemisfério sul. Corrupção e desigualdade são duas das chaves para que os homicídios aconteçam. Por exemplo, no que toca à exploração de terras, pode haver investimentos entre empresas e autoridades corruptas.

Ativistas que tentem ir para a justiça são muitas vezes confrontados com juízes pagos com subornos. Isto leva a uma terceira chave: a impunidade. Muitas vezes, os casos não são investigados e os criminosos não são levados à justiça”, continuou a explicar Hines.

O relatório pede aos governos de cada país que criem espaços civis seguros para os ativistas ambientais e que promovam a responsabilidade criminal das empresas, ajudando a criar uma cultura de tolerância zero para com a violência contra ambientalistas.
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