República Centro-Africana: Um país instável desde a independência e em guerra desde 2013

Bangui, 07 fev (Lusa) -- A República Centro-Africana (RCA), país pobre e instável da África Central, está em guerra desde o derrube do Presidente François Bozizé por uma rebelião em 2013, apesar do envio de forças de manutenção de paz.

Lusa /

Com uma superfície de 622.984 quilómetros quadrados, a RCA está encravada entre o Chade, o Sudão, o Sudão do Sul, a República Democrática do Congo e os Camarões.

Classificada em antepenúltimo lugar (188.º) no Índice de Desenvolvimento Humano, elaborado pela Organização das Nações Unidas, tem 75% dos seus 4,6 milhões de habitantes a viverem abaixo do patamar de pobreza, segundo o Banco Mundial.

Os conflitos travaram o desenvolvimento deste país rico em recursos, como urânio, diamantes, madeira e ouro, que são disputados pelos grupos armados. Entre as suas produções, estão também algodão, café e tabaco.

No final de 1965, David Dacko, o primeiro chefe de Estado depois da independência em 1960, foi derrubado por Jean-Bedel Bokassa, sucessivamente presidente e imperador. Demonstrações de megalomania e abusos sangrentos marcaram a sua era.

Em 20 de setembro de 1979, Bokassa, quando estava em visita à Líbia, foi derrubado por paraquedistas franceses. Dacko restabeleceu a República, mas teve de abandonar o cargo dois anos depois, por pressão dos militares. André Kolingba acede ao poder e instaura o multipartidarismo em 1991. Em 1993, Ange-Félix Patassé ganha as eleições presidenciais.

Entre 1996 e 2001 o país conheceu três motins e um golpe de Estado falhado. Em 2003, François Bozizé, antigo chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, em rebelião desde novembro de 2001, derruba Patassé, com a ajuda da França, e declara-se Presidente.

Desde 2005, o país assiste a várias rebeliões, que se apoderam de localidades do norte, que são recuperadas por Bangui graças à ajuda da França ou pelo exército chadiano, a pedido dos dirigentes centro-africanos.

Em março de 2013, os rebeldes de uma coligação heteróclita, a Séléka, conquistam Bangui e derrubam Bozizé. O seu chefe, Michel Djotodia, proclama-se Presidente. As ações da Séléka, integrada maioritariamente por muçulmanos, contra as populações maioritariamente cristãs e animistas, provocam a criação de milícias, ditas de autodefesa e designadas antibalaka, que por seu lado se vingam nos muçulmanos do país.

Receando um genocídio, a França, antiga potência colonial, lançou a operação militar Sangaris (2013-2016), sob mandato da ONU. Em 2014, a Organização das Nações Unidas lançou a sua própria operação, a Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização na República Centro-Africana (MINUSCA).

No início de 2014, o Presidente Djotodia demite-se sob pressão internacional, abrindo um período de transição até à eleição do Presidente Faustin-Archange Touadéra em fevereiro de 2016.

Depois da saída da Sangaris, as violências regressaram paulatinamente às províncias controladas pelos grupos armados.

O conflito neste país, com o tamanho da França e uma população que é menos de metade da portuguesa (4,6 milhões), já provocou 700 mil deslocados e 570 mil refugiados, e colocou 2,5 milhões de pessoas a necessitarem de ajuda humanitária.

O Governo do Presidente Faustin-Archange Touadéra, um antigo primeiro-ministro que venceu as presidenciais de 2016, controla cerca de um quinto do território.

O resto é dividido por mais de 15 milícias que, na sua maioria, procuram obter dinheiro através de raptos, extorsão, bloqueio de vias de comunicação, recursos minerais (diamantes e ouro, entre outros), roubo de gado e abate de elefantes para venda de marfim.

Portugal está presente na RCA desde o início de 2017, no quadro da Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização na República Centro-Africana (MINUSCA).

No início de setembro, o major-general do Exército Marco Serronha assumiu o cargo de 2.º comandante da MINUSCA, que já sofreu 75 mortos desde que foi criada, em 2014.

Aquela que já é a 4.ª Força Nacional Destacada Conjunta no país é composta por 180 militares (177 do Exército e três da Força Aérea) e iniciou a missão em 05 de setembro. Outros seis militares do Exército português integram o comando da missão das Nações Unidas.

Portugal também integra e lidera a Missão Europeia de Treino Militar-República Centro-Africana (EUMT-RCA), comandada pelo brigadeiro-general Hermínio Teodoro Maio.

Na EUTM-RCA, que está empenhada na reconstrução das forças armadas do país, Portugal participa com um total de 53 militares (36 do Exército, nove da Força Aérea, cinco da Marinha e três militares brasileiros).

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